MOEMA

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PAPIRUS DO EGITO

quinta-feira, 5 de julho de 2012

RIO PERICUMÃ



                                                            RIO PERICUMÃ – Parte I

                                                                                 Moema de Castro Alvim



CONSIDERAÇÕES GERAIS - Há muito a Humanidade busca saber a origem da Vida, como e quando se iniciou. Sabe-se que há 600-700 milhões de anos, várias formas de vida e até alguns grupos já haviam sido diferenciados, surgindo as formas primitivas em ambientes aquáticos. Loureno Oken, filósofo naturalista alemão afirma de modo categórico a procedência marinha da substância que deu origem à  Vida, corroborando as hipóteses emitidas por Thales de Mileto (640-548aC). Como os animais mais simples e primitivos são aquáticos e como todas as células e líquidos contém cloreto de sódio, infere-se que a Vida se originou nos oceanos. Vários animais invadiram a água doce e a terra, alguns se tornando marinhos, outros répteis e mamíferos como a foca e a baleia.

Aceitando ou não essas hipóteses o certo é que a dispersão das formas animais deu-se através da água, tendo surgido os Peixes há 45 milhões de anos, de acordo com informações obtidas no Google. O vocábulo Peixe origina-se do grego ichthyes, passando para o Latim com o nome de pisces. Cerca de 28.500 espécies já foram identificadas das quais a maior parte vive em água salgada, representando mais da metade de todos os vertebrados. A origem do Homem, no entanto, remonta há 10-12 milhões de anos. Todas as civilizações pesquisadas e conhecidas surgiram nas proximidades de rios, lagos e oceanos; entretanto as primeiras citações sobre criação de peixes datam de 5.000 a.C., na China, enquanto no Egito há apenas 2.000 a.C. Os romanos há milênios adotavam essa prática, assim como os Astecas na América Central.  Muitas comunidades antigas estabeleceram-se em lugares onde pudessem estar ao abrigo das intempéries; outras em locais de fácil defesa, outras perto dos recursos naturais, enquanto outras combinavam essas vantagens, o que levou ao desenvolvimento antes mesmo da Revolução Industrial. À medida que a população crescia, aumentava também o seu impacto no meio ao seu redor, numa complicada interação da fauna e da flora, do clima e do solo.  As recentes descobertas em Ciências Biológicas tornaram possível um nível mais expressivo de produção de alimentos. Com a demanda crescente de alimentos, muitas regiões passaram a interessar-se pela exploração da pesca em lagos e tanques artificiais, nas proximidades dos mercados consumidores, deixando-os mais expostos ao risco de poluição, geralmente combinando essa prática com projetos de irrigação e de drenagem, somando-se com a cultura de arroz.

Principal fonte de proteína animal das regiões ribeirinhas e das populações que vivem às margens de lagos, os peixes desempenharam papel importante para a humanidade, ao longo de sua trajetória terrestre, na busca incessante de fontes de alimento para a sua sobrevivência, desde os tempos do homem paleolítico que deixou ossos nos seus sambaquis. A carne da maioria dos peixes é branca ou ligeiramente avermelhada, de textura flocosa, contendo 13 a 20% de proteína e tem um valor alimentar de 660 a 3.500 kcal, dependendo do conteúdo de óleo, além de minerais como fósforo e o fator antioxidante Ômega 3.

A pescaria para algumas pessoas constitui recreação (pesque-e-pague); para outras representa  grandes negócios, enquanto para a  maioria das populações,  é a única fonte de alimento disponível. Há espécies de peixes que ocorrem somente na água salgada, desde a superfície às mais diversas profundidades; em águas abertas com fundo arenoso, rochoso, lodoso, em fendas de recifes de corais, em baias salgadas e estuários; em rios e lagos de água doce ou alcalina, em águas de cavernas e mesmo em fontes quentes com temperatura até 34°C. A maioria, no entanto, vive em temperatura que oscila entre 9 e 21°C. Alguns peixes litorâneos apresentam papel importante em relação à fauna dulcícola, enriquecida por muitas espécies marinhas, na piracema, quando muitas espécies procuram ambientes tranqüilos, geralmente igarapés, para fazerem a sua desova, como a pirapema, o robalo ou camurim, chamados anádromos, enquanto, espécies, como a manjuba ou enchova e o emboré, designados diádromos conseguem viver nos dois ambientes. Dependendo da salinidade das marés, pode ser encontrada uma variedade maior de peixes.

Os peixes da água doce estão na dependência da atuação do Homem que devido às suas ações predatórias poderá reduzir drasticamente a piscosidade dos rios, seja pela pesca excessiva, construção de barragens, contaminação da águas com despejos domésticos e das fábricas. A fauna da água doce é calculada em mais de 2.000  espécies, pertencentes a 68 ordens diferentes.

No Brasil, as primeiras referências à fauna ictiológica se devem a Gabriel Soares de Sousa, cronista português que em 1587 descreveu algumas espécies de peixes de água doce e salgada encontradas no litoral pernambucano. O Estado do Maranhão, praticamente desconhecido no século XVI e início do século XVII, quando, como possessão portuguesa, estava sob o domínio espanhol (1580-1640), teve a sua fauna e flora estudadas no século XVII, por Frei Cristóvão de Lisboa, quando esse religioso aqui missionou, entre 1624-35, como Qualificador do Santo Ofício e Guardião do Convento de Santo Antônio de Lisboa e fundador da Custódia do Maranhão. Embora de valor inestimável, empenhando-se nesse trabalho durante longos anos, e deixando-nos precioso legado, suas pesquisas só foram publicadas em 1967, após o acesso aos desenhos feitos à bico de pena, pelo historiador João de Paula Carvalho que identificou as plantas e os animais do Maranhão, particularmente os peixes, tanto de água doce como da água salgada. Geralmente a nomenclatura da maior parte dos nossos peixes deriva-se do tupy, segundo Theodoro Sampaio, em 1901; mais tarde Câmara Cascudo (1938) levantou a etimologia e sinonímia de 221 espécies de água doce e salgada.

O litoral  maranhense é conhecido pelos seus grandes estoques pesqueiros, sendo considerada a costa mais rica em cardumes de diversos espécies de peixes. Destacam-se algumas regiões especiais como o Litoral Norte e Nordeste e a Baixada Ocidental, para a pesca lacustre.  Entre nós, a pesca ainda é exercida de maneira artesanal e como atividade de subsistência. A nossa infra-estrutura pesqueira é precária, sendo responsável apenas por cerca de 30% da produção do Nordeste, não existindo em nosso Estado indústrias pesqueiras que processem esse produto para exportá-lo. Como é do conhecimento geral os peixes se deterioram muito rapidamente e seu grau de qualidade é aferido pelo seu estado de conservação: quanto mais frescos, melhores e mais caros, utilizando-se, para isso, mão-de-obra para limpá-los, descamá-los, eviscerá-los, armazenando-os e conservando-os no gelo.





RIO PERICUMÃ – Parte II



Primórdios – Origens da nomenclatura. Embora conhecido desde tempos imemoriais pelos índios que habitavam a região de Cumã, somente em 1613 os povos civilizados navegaram o Rio Pericumã, nas pessoas dos invasores franceses, comandados por La Ravardière e por De Pézieux, seu lugar-tenente, que estiveram naquela área, levando nessa expedição quarenta soldados valentes, dez marinheiros e vinte índios, reforçando esse contingente com mais sessentas escravos selvagens recrutados em Tapuitapera e Cumã, para exploração de minerais no Amazonas e no Gurupi.  Após a instalação, nas proximidades da sua foz, da Fazenda Guarapiranga que deu origem ao município de Guimarães, o rio Pericumã passou a ser navegado, sendo usado como rota entre as Capitanias do Maranhão e a do Pará. Mais tarde, a partir de 1754, quando aquela região que constituía a sub-Capitania de Cumã, deixou de ser hereditária, tornando-se real, portanto pública e suas terras passaram a ser distribuídas (1768) por dactas e sesmarias, seu curso, seus afluentes e seus peixes tornaram-se conhecidos. Yves DÈvreux em sua Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 a 1614, fala sobre peixes, pássaros e répteis, sem contudo especificá-los.

Segundo o Padre Claude d`Abbeville, o termo Cumã significa próprio para pesca, enquanto Pericumã, deriva-se de piri+curimã, cumã=junco+curimã (lugar coberto de juncos onde são abundantes e pescam-se curimãs ou curimatãs).

Com uma extensão de 110 a 115 km, o Rio Pericumã é o mais importante rio da Baixada Maranhense. Situa-se na região noroeste do Estado a 1°00` - 4°00`s e 44° 21`-45°21`w  com uma bacia ocupando uma área de 4.500km2, drenando uma área de 3.888,55 Km2, o que corresponde a 1,71% do território maranhense. As suas nascentes estão localizadas num complexo de lagoas e pequenos lagos (Burigiativa) no município de Pedro do Rosário, desmembrado do município de Pinheiro em 1994, nas proximidades da zona rural do município de São Bento. Percorre vários municípios, inicialmente na direção sul-norte, tomando depois a direção noroeste até a sua foz. Em seu percurso corta os campos de Pinheiro, Palmeirândia, São Bento, São Vicente Férrer, Olinda Nova, Presidente Sarney, Matinha, Viana, Pedro do Rosário. Também, Mirinzal, Central do Maranhão, Bequimão e Guimarães, antes de desaguar na Baia de Cumã.  A Baixada, ocupa uma área de 1.775.035, ha ou 17.579.336 Km2 e é constituída por 21 municípios, estendendo-se nos baixos cursos dos rios Pindaré e Mearim e médios e baixos cursos dos rios Pericumã e Aurá, reunindo um dos mais importantes sistemas lacustres das Regiões Norte/Nordeste do Brasil. De estrutura geológica recente, provavelmente formada no Pleistoceno, com terrenos terciários e quaternários, constitui uma depressão preenchida por  sedimentos quaternários, ainda em formação, sujeita a inundações no período chuvoso pelo transbordamento dos rios, englobando planícies aluviais e lagoas (Açu, Penalva, Viana, Cajari). Dessa formação recente resulta um ecossistema vulnerável, frágil, que necessita de proteção, passando a constituir, a partir de 1991, Área de Proteção Ambiental da Baixada Ocidental Maranhense – Ilha dos Caranguejos (Cajapió) pelo Decreto 11.900 de 11/6/91, reeditado em 05/10/91.

A Região do Golfão Maranhense, inserida em uma planície flúvio-marinha, constituída pelos estuários afogados dos rios Mearim, Itapecuru e Mearim é “o prolongamento das características geomorfológicas e ambientais desde o estuário amazônico e a convergência das bacias hidrográficas desses rios acrescida do Pindaré e Munim, para o golfão, interligando diferentes domínios paisagísticos e ecossistemas (amazônicos, cerrados, cocais, etc) qualificou a região como cenário estratégico para assentamento de populações pretéritas” (Leite Filho, 2012) Essa interação propiciou condições ideais, cujos resquícios constituem ainda, nos dias atuais, os sítios lacustres, as estearias da Baixada e os sambaquis, estes identificados na Ilha de São Luís por Jerônimo de Albuquerque, desde a conquista, recomendando o cal extraido das conchas de ostras para reparo do forte e construção das novas casas fora da forlaleza, seguindo as plantas do engenheiro português Frias. A partir de 1919 Raimundo Lopes passou a defender a teoria de que essas ocupações foram devidas às migrações de grupos tardios amazônicos até o limite ocidental de ambiente de floresta equatorial úmida, chegando a publicar, em 1924, que esses assentamentos lacustres e os marajoaras ocorreram no final da regressão do nível do mar e uma última fase de ocupação, a proto-história, coincidindo com o declínio da cultura marajoara, a subida do nível do mar, e permanência das culturas derivadas. AB`SÁBER, 1960, faz referência à reestruturação paisagística e ecossistêmica em função dos processos eustásticos e instabilidades climáticas, sofridas na porção norte do Maranhão, a nível do golfão, durante o Quaternário, modelando em ambiente de pré-chapadas interiores a um complexo sistema de colmatagem flúvio-lacustre. Dias em 1907 vai mais além: “o soerguimento da faixa costeira propiciou a gênese na formação dos lagos durante o Pleistoceno, tornando-se essa região receptora de sedimentos carreados pelos rios Pindaré, Grajaú e Mearim e das vertentes dos tabuleiros costeiros, configurando os ambientes de sedimentação que são as bacias lacustres”.

A Baixada representa, também, extenso refúgio para aves aquáticas e é de grande importância principalmente na época seca. Há aves nativas como a garça, o jaburu, a marreca, o jacu, o paturi, o carão, o biguá, o socó, o mutum e muitas outras, mas as mais cobiçadas pelos caçadores são as migratórias, dentre as quais: jaçanãs, maçaricos, japiaçocas, pirulicos, guarás que escolhem os campos como local de descanso, parada, alimentação e nidificação. A caça a essas pernaltas e palmípedes, assim como a coleta de ovos são considerados crimes ecológicos, inafiançáveis.

Os campos da Baixada, constituem biomas de fisionomia pouco variável. Conhecidos como campos de várzeas ou campos baixos recobrem a maior parte dos municípios, e desde os tempos coloniais são utilizados para criação de bovinos, principalmente, graças a excelência dos seus pastos, com numerosas espécies de gramíneas, piperáceas e alguns arbustos como algodão, canarana, arroz brabo, junco, varias espécies de mururus, capim-marreca, capim-do-pará. Na década de 1960 foram introduzidos búfalos, cuja criação fora feita de maneira extensiva, por serem de manejo mais fácil, pois em relação à alimentação são menos exigentes que os bovinos; entretanto compensam a qualidade pela quantidade de gramíneas e ciperáceas consumidas, diminuindo a biomassa vegetal, com sérios reflexos na diminuição de nutrientes do meio límnico e conseqüente redução do pescado. Por serem mais pesados e dotados de menor mobilidade causam, também, problemas na compactação do solo. O número de queixas têm aumentado nos últimos vinte anos, principalmente da parte de pescadores e pequenos lavradores cujas redes de pesca e plantações tem sido destruídas, respectivamente, reduzindo-se, por conseguinte, o rebanho bubalino.                                                                                                                                                                                                                   

Há evidências arqueológicas de que os primeiros habitantes da região, ora conhecida como Baixada Maranhense, estabeleceram-se na região dos lagos, principalmente de Pindaré, Penalva, Cajarí,  e Turiaçú há 6.000-8000 anos atrás, conforme atestam as estearias, descritas pelo Cel. Antonio Bernardino Pereira do Lago  em 1820 e mais tarde (1879) mencionadas  por Celso Magalhães, promotor público do Maranhão e por Mariano Raimundo Correia, morador da cidade de Penalva. Entre os anos de 1919-30 o naturalista Raimundo Lopes, pesquisou os assentamentos de populações pré-históricas e sua interação com as paisagens na Baixada, verificando “in loco”as estearias do Encantado, no vale do Pericumã, nas imediações de Pinheiro, alí encontrando fragmentos dos utensílios de barro utilizados nas tarefas do cotidiano por aqueles povos, chamados por ele de cacaria, assim como as do Lago Cajari,no município de Penalva. Outras estearias como a do rio Turi, nas proximidades da Chapada de Pinheiro: a do lago Jenipapo; a da Ponta da Estrela; a do Cabeludo no Parauá; a da Volta do Arlindo; a do lago do Sousa e a da boca do igarapé Florante, também foram localizadas.

Recentemente um grupo de arqueólogos paraenses do Museu Emilio Goeldi e da Universidade Federal do Pará e maranhenses dentre os quais o Dr. Deusdeti Carneiro Leite Filho, Diretor do Centro de Pesquisas de História Natural e Arqueologia do Maranhão, pesquisando com as novas técnicas disponíveis, inclusive com a datação por Carbono 14, constataram que os esteios usados na feitura das moradias dos povos primitivos anteriores às populações indígenas  teriam sido utilizados há 10.000 anos atrás. Foram identificados 16 sítios arqueológicos nos municípios de Santa Helena, Pinheiro, São João Batista e Penalva (lago Cajarí), com a tipificação de 6 estearias, resquícios das casas  adaptadas às regiões alagadas e que evoluíram para as nossas palafitas, assim como preciosa cacaria.

 Na região do Pericumã já foram catalogadas mais de 1.700 espécies de peixes, das  quais 700  pertencem à família dos Caracídeos ou peixes de escamas, como o jeju, a piaba, a piranha e a traira, seguidos pelo grupo dos Nematognatos que abrangem os cascudos com quase 300 espécies. Com 350 espécies, encontram-se os verdadeiros peixes de couro, onde estão os bagres, mandis, burejas, surubins, providos de 2 a 3 pares de bigodes de tamanho variável. Os Ciclídeos ou acarás abrangem 120 espécies, enquanto os Gimnotídeos, dentre os quais o sarapó, possuem cerca de 30 espécies. Nos campos de São Bento e Palmeirândia os Simbranquídeos representados pelos muçuns são bastante apreciados. Esses peixes apresentam reversão sexual: nascem espécimes com sexos separados, mas após o primeiro período reprodutivo as fêmeas tornam-se machos.

No município de Pinheiro mais de 90% do pescado consumido vem do Rio Pericumã e apenas 10% é atribuída à criação em tanques e açudes, ou procedem do Lago Turi ou do município de Cururupu. Dentre as espécies preferidas na cidade de Pinheiro, as mais comuns são:  traira  (tarira),  jeju, pirapema, curimatá e piranha, descritas em 1625 pelo Frei Cristóvão de Lisboa que veio de Portugal para o Maranhão com a missão de evangelizar os índios. Outras espécies, também consumidas pela população são: cabeça gorda, bagre, piaba, jandiá, cascudo e acará. Mais raros: surubim e camurim. Peixes de valor comercial mais baixo, como tapiaca, piau, mandi, pacu, bodó, são procurados pela população mais pobre.

Pode afirmar-se, sem quaisquer dúvidas, que a comercialização do pescado foi um dos fatores primordiais para o povoamento da região de Pinheiro: desde fins do século XVIII homens nômades viviam entre os rios Pericumã e o Turí pescando, salgando e secando peixes para vender em Guimarães e Alcântara, possibilitando o intercâmbio entre os campos alagados e a região litorânea.

O rio Pericumã nivela ricos e pobres, pois todos se alimentam dos mesmos peixes nele gerados e criados.

RIO PERICUMÃ – Parte III

Tipos de Peixes - Dentre os peixes mais comuns, isto é, aqueles que consumidos com mais freqüência quando residia em Pinheiro, são as piabas as minhas preferidas. Eram vendidas às pratadas. Deliciosas quando cozidas, com um pouco de sal, cheiro verde e cebolinha podem ser acompanhadas com arroz branco ou pirão de farinha seca, sem esquecer a pimenta de cheiro e o limão. Algumas pessoas preferem comê-las fritas ou assadas no espeto, podendo ser servidas como tira-gosto ou para acompanhar uma tigela de juçara com ou sem açúcar.

Os bagrinhos, desdenhados tempos atrás quando eram chamados anojados  passaram, a partir da década de 1960, a figurar no cardápio pinheirense, principalmente quando há convidados ilustres: são as afamadas ceias de bagres, instituição  oficializada por Nhô Di (Waldir Soares) e Edésio Castro, regadas a vinho tinto e saboreadas em clima festivo. Eram vendidos em cofos.

Os jejus e as trairas são preferidos pela maioria da população. Vendidos em cambadas eram cozidos, fritos, grelhados ou à escabeche, e comidos com arroz e farinha, no almoço e no jantar de segunda-feira a sábado. Aos domingos são substituídos por frango ou galinha, carne de porco ou de rês (vaca). A traira é o peixe de maior valor comercial. Quando aberto ou escalado para retirar-lhe as vísceras, salgado e seco, chamado jabiraca, chega, às vezes, a ser comercializado por valor superior ao do bacalhau. Historicamente foi de grande importância, contribuindo para o povoamento da região, ao lado dos peixes provenientes do Turi, como o surubim, o mandubé e o bagre de São Pedro. Inicialmente os pescadores armavam seus ranchos à beira dos rios e lagos, feitos com pindoba, as chamadas rancharias de salga que deram origem a muitos povoados.

O acará, a cabeça-gorda, o jandiá, e camurim  são excelentes quando cozidos. Menos freqüente na mesa dos pinheirenses: a piranha de papo vermelho, o cascudo, o piau, mandi, pacu, bodó.

Além desses processos mais comuns na preparação dos pratos à base de pescados, fazem-se tortas, assados, moqueados, recheados com ovas. Para transportá-los, geralmente socam-se, em pilão, os peixes previamente dessecados e desfiados, enrolados com folhas de mandairi e acondicionados em cofos. Yves dÈvreux se refere à prática adotada pelos índios em assar os peixes recém-apanhados com escamas e vísceras. Para consumi-los retiravam a pele, secavam-na ao sol, pisando-as em um pilão, reduzindo-a a pó, com que preparavam mingaus.

Nos últimos 50 anos foram introduzidos, para alimento e esporte, peixes da região amazônica como o tambaqui (Rio Negro) e até espécies do continente  africano como a tilápia. Os tambaquis não se reproduzem em cativeiro; os criadores adquirem os alevinos gerados em laboratório e os criam em tanques e açudes. Chegam a alcançar 20cm de comprimento e 13-20kg de peso. São considerados competidores biológicos pois alimentam-se  do fito e zooplancton, larvas de camarões, frutos terrestres, larvas de insetos aquáticos e alevinos de espécies autóctones. As tilápias são de diversas procedências: a do Congo Belga fora introduzida em 1953, prolífera, reproduz-se quatro vezes por ano. As mais conhecidas foram introduzidas no Brasil no início da década de 1970 e procedem da Costa do Marfim. Excelente fonte de proteínas, esses peixes podem ser consumidos após cozimento ou dissecando-os para transformá-los em farinha. Atualmente constituem verdadeira praga, pois a sua grande voracidade destrói o plâncton que funciona como termômetro dos sistemas aquáticos e representa a base da cadeia alimentar, assegurando condições ecológicas produtivas, imprescindíveis à dinâmica da fauna ictiológica.

Técnicas de captura - Dependem do tipo de peixe que se pretende adquirir e dos locais escolhidos para pescaria. Os especialistas classificam em dois os métodos adotados, determinados pelos apetrechos utilizados: dinâmico – anzol de linha ou caniços, rede de arrasto, tarrafa, puçá e espinhel. As tarrafas e redes de arrasto atualmente são tecidas com fio de nylon pelos próprios pescadores, em substituição ao fio de algodão. O puçá ou socó fora herdado dos indígenas, assim como o arpão e o arco e flecha .Os bagres são apanhados à noite, com caniços. Outros peixes, também são fisgados com anzol de linha, principalmente no inverno; para peixes maiores, como o curimatá são usados arpões; estático – zangaria, malhadeira, curral e tapagem. Este último artefato, feito com talos e folhas de palmeira é prejudicial, portanto predatório, pois apanha indiscriminadamente peixes no período da piracema, quando procuram ambientes lênticos para a desova. Nos currais também feitos com talos e pindoba os peixes ficam aprisionados, sendo depois apanhados com as mãos. São geralmente armados nos campos, poções, pequenas lagoas e lagos inundados pelas águas das grandes chuvas que transbordam dos rios, riachos, igarapés. Outros métodos quase em desuso, pois são totalmente condenáveis, consistem no uso de timbó e dinamite.

Tipos de iscas - São várias as iscas usadas para atrair os peixes, dependendo da espécie que se deseja fisgá-la. As mais comuns são: minhocas, bichos de coco (larvas de insetos encontradas em tucuns), pedaços de peixes sem grande valor econômico, peixes miúdos. Alguns pescadores usam bolotas de angu, feitas com farinha seca ou tapioca; outros lançam mão de cupinzeiros, formigueiros, enquanto outros utilizam insetos como moscas, gafanhotos. Em pescarias esportivas são usadas iscas artificiais.

Outras utilidades dos peixes – Além do lazer, há pessoas que se dedicam à criação de peixes exóticos, de efeito ornamental para criação e exibição em aquários. Os peixes, também são usados para extração do óleo e para confecção de cola, farinha ou conservados em recipientes para alimentação. Algumas espécies estão sendo testadas para controle biológico de larvas de anofelinos, vetores dos agentes da malária.                             

                                                 





A BARRAGEM DO PERICUMÃ – Parte IV



Segundo Leite Soares as águas do Pericumã atingem seu apogeu nos meses de chuva, quando as águas correm em direção ao mar, levando consigo mururus e aguapés. A força das águas em certas ocasiões fora tão forte que as canoas procedentes do Armazém eram rebocadas por numerosos homens ou mantidas às margens até que a correnteza amainasse. Após o período do inverno, as águas do rio baixavam, devido ao forte calor que provocava a evaporação das mesmas, os campos secavam, o solo rachava. O gado enfraquecido pela carência de capim, ficava preso nos atoleiros, morrendo de sede, causando grande prejuízo aos criadores. Por essa época o prefeito mobilizava-se, recrutando trabalhadores que munidos de enxadas e pás, tentavam conter as águas, construindo as tradicionais tapagens. Estas eram feitas com talos de pindoba e barro, à semelhança das paredes de pau-a-pique, para manter algum volume de água, evitando assim, que o rio secasse totalmente. Esse serviço era executado nas marés baixas para tentar vencer as correntes de refluxo, concluindo com sucesso a feitura das barragens. Ainda seguindo o texto de Leite Soares a principal barragem era feita nas imediações do Barro Vermelho, cerca de mil metros à montante do antigo Armazem, ou Porto Santa Cruz, um pouco antes da atual Barragem do Pericumã. Essa fora a maior preocupação de prefeitos e da população que tinha nos peixes a única fonte de subsistência, pois quando a construção dessas barragens atrasava havia o perigo da água salgada invadir os campos nas marés de sizígia e causar grande mortandade de peixes.

Após estudos preliminares sobre o impacto ambiental causado pela construção de uma barragem e suas conseqüências nas alterações da fauna e flora, foi finalmente construída a Barragem do Pericumã, pelo DNOS, para proteger a cunha salina que sofre constante influência da maré, represando tanto o fluxo de montante nas cheias do rio quanto a de jusante na maré enchente. A sua construção começou em 1978 tendo sido concluída em 1982. Tem 100 m de comprimento por 25m de largura, represando 63 milhões de metros cúbicos de água. Tem três comportas, uma eclusa e dois diques laterais, fornecendo água e pescado para os municípios de Pinheiro, Palmeirândia, Perimirim e Pedro do Rosário. À montante da Barragem situam-se: Pinheiro, Palmeirândia, São Bento, São Vicente Férrer, Olinda Nova, Presidente Sarney, Matinha, Viana e Pedro do Rosário, enquanto à jusante ficam Mirinzal, Central do Maranhão, Bequimão e Guimarães. Uma das eclusas permite o tráfego das embarcações que podem navegar até Pinheiro, cerca de 50Km da foz.

Sem manutenção a Barragem que fora o grande sonho dos baixadeiros vem transformando-se em pesadelo, exigindo a dragagem do rio à montante da barragem numa extensão de 35km, aproximadamente. A abertura das eclusas resulta em grande impacto ecológico, causando significativo desequilíbrio com conseqüente alteração dos ecossistemas aquáticos, e em determinados períodos resultando em grande mortandade de peixes ovados, com reflexos na diversificação e abundância da fauna ictiológica.

As principais críticas referem-se à falta de estudos preliminares quanto ao ciclo biológico das espécies nativas, seus hábitos alimentares, fatores que influenciam seu crescimento, os processos de migração, época da piracema, disponibilidade de alimentos e rendimento sustentável. Há referências ao turvamento das águas misturadas com água salobra, que reduzem a diversidade do plâncton, comprometendo a circulação da fauna, formando ambientes lênticos, enquanto o aumento do espelho d`água à montante, inunda os sítios reprodutivos, modificando a estrutura trófica.

                                            CONSIDERAÇÕES  FINAIS

Este texto resultou de pesquisas bibliográficas cujas  fontes estão abaixo relacionadas. Não o fiz  com a pretensão de suprir prováveis lacunas; também não há quaisquer interesses de ordem científica, geo-econômica, tão-pouco relacionados às técnicas de pescaria. À guisa de posfácio,  trata-se tão-somente de um artigo de cunho saudosista sobre Pinheiro, quando ainda era uma pequena cidade pacata e ordeira, ideal para formar família, criar e educar nossos filhos, pois todos se conheciam e os espectros das drogas, da violência, da pedofilia não eram sequer cogitados pelos seus habitantes. Eram os primeiros cinqüentas anos da antiga vila, elevada à cidade em 1920, orgulhosa do seu jornal “Cidade de Pinheiro”, do seu Ginásio Pinheirense, o primeiro instituído em toda a Região e ostentando orgulhosamente uma plêiade de jovens inteligentes e promissores que a transformariam em celeiro de  talentos e pólo intelectual de toda a Baixada. Atualmente as suas avenidas e ruas vivem congestionadas por um trânsito caótico, perigoso e barulhento. É como se a cidade tivesse perdido a sua inocência, a sua alma, o seu espírito, para uma modernidade equivocada, confundida com progresso, evidenciada pelo crescimento desorganizado e sem planejamento que se expandiu além de sua capacidade física e ambiental, destruindo e invadindo seus campos, profanando e poluindo a sua aprazível Faveira. Estes textos publicados neste blog refletem a nossa  inconformidade  com as modificações atuais, incapazes de conviver harmoniosamente com uma arquitetura humanizada que deu à nossa cidade o título de Princesa da Baixada.



                                              BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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Abreu, Josias Peixoto – Coisas de Antanho, 2006

Alvim, Aymoré de Castro – Pinheiro em foco,  2006

Evreux, Yves – Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 a 1614 -  3@ Ed. 2002

Frei Cristóvão de Lisboa – Hstória dos animais e árvores do Maranhão

Lago, Antônio Bernardino – Itinerário da Província do Maranhão, 2001

Leite Soares, José Jorge - Lugar das Águas,  2006

Leite Filho, Deusdeti Carneiro – Ocupações Pré-Coloniais no Litoral e nas Bacias Lacustres do Maranhão,

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Viveiros, Jerônimo – Quadros da vida pinheireirense, 2006

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  1. Estou acompanhando com grande interesse os seus textos sobre a região de Cumã e do Pericumã. Confesso que não entendia o atraso daquela região em relação às demais do nosso Estado. Sem ser historiadora a sra. presta mais informações do que todas as aulas de história do Maranhão que tive em toda a minha vida acadêmica. Aguardo novas postagens e creia-me admirador do seu talento e conhecimento.

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    1. Vc sabe como ninguém, aproveitar o seu tempo, amiga, e também por isso eu tenho muita admiração por vc. Para quem gosta de história é uma delícia, e para quem não GOSTAVA, seus textos são saborosos. Bjs

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