MOEMA

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PAPIRUS DO EGITO

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

MAMONA - RÍCINO – CARRAPATO




Nos primeiros anos após a descoberta lusitana, o nosso país começou a despertar a cobiça e ser assediado por europeus,  como  franceses e holandeses que começaram a frequentar o litoral brasileiro, principalmente, Rio de Janeiro, em 1555 por Villegaignon e Jean de Lery; mais tarde, Natal e em 1594 a Ilha de Upaon-Açu, no  Maranhão. Através de várias investidas, tentaram estabelecer uma base no Rio de Janeiro e outra no Maranhão para explorar madeiras, principalmente o pau-brasil e as chamadas drogas do sertão, extraídas das matas pelos silvícolas: borracha, castanha, salsaparrilha, quina, baunilha, pau-cravo, canela, urucum,  guaraná, cacau, óleos como de coco, mamona, amendoim e, principalmente o azeite de copaíba. No Período Colonial os navios saiam abarrotados não só de produtos agrícolas,  mas de  outros obtidos por extrativismo,  para suprir a carência da Metrópole. O Pará por fazer parte da região amazônica era mais espoliado do que o Maranhão, inclusive pelos generais-governadores que se enriqueciam por conta dessa exploração predatória. Na  Ilha Grande ou Upaon-Açu, os franceses e holandeses foram os primeiros devastadores  das nossas matas, cortando não só o pau-brasil mas outras madeiras para construção dos pórticos de suas igrejas e castelos, esteios de suas casas e fabricação dos seus navios. Desde 1594, alguns franceses como Charles des Vaux, já estavam aqui estabelecidos, deixados por Jacques Riffault, para conquistar a confiança dos silvícolas e aprender sua língua e costumes. Dois anos depois, Des Vaux voltou para a França, em embarcação  carregada de toras de pau-brasil, contando maravilhas e falando de tesouros fabulosos encontrados na Ilha e, desse modo despertando a cobiça de Daniel de La Touche que se associou a François de Rasilly e Nicolas Harley de Sancy, numa  expedição exploradora, com o aval de Henrique IV que morreu logo depois. Alguns anos depois, em 1612, convenceram a Rainha-Regente Maria de Médici, católica convicta de que apesar de serem huguenotes, o objetivo da viagem era converter os pagãos. A Rainha enviou uma carta  para o prior do Convento dos Capuchinhos convidando-os a integrar a expedição. Os franceses, portanto foram os primeiros europeus a derrubar nossas matas. Além da madeira, poucas drogas encontraram e logo nos primeiros meses após a sua chegada, cuidaram de adentrar a Amazônia, em busca de ouro, outros metais e pedras preciosas. Possivelmente uma rota que  os levasse ao Peru em busca da prata que os  espanhóis haviam pilhado dos Inca. Expulsos, finalmente das terras maranhenses em 1615, fomos invadidos em 1641 por holandeses que, além da madeira, estavam interessados no açúcar produzido, principalmente nos engenhos do Itapecuru.

      ORIGEM DA MAMONEIRA

O óleo de mamona, rícino, carrapato ou castor oil  possui uma enorme versatilidade química  no ramo industrial.
Mesmo antes de conhecer-se todos os seus usos fora sempre um dos óleos mais procurados, obtido pela compressão das bagas  de plantas da família  das Euforbiáceas, com algumas variedades entre as quais – Ricinus communis, também conhecida por mamoneira-comum ou branca; R. viridis ou mamoneira-verde; R. sanguineus ou mamoneira-vermelha; R. communis minor ou mamoneira-anã. São conhecidas vulgarmente pelos nomes de carrapateira, palma-cristi ou rícino.
De extraordinária adaptabilidade, essa euforbiácea é encontrada em quase toda a região povoada do país, onde cresce com um vigor e uma tenacidade só comparáveis às das plantas nativas mais comuns e mais invasoras. Não se sabe a época em que foi introduzida no Brasil pelos portugueses, pois é originária do Norte da África, provavelmente da Abissínia, e da Índia Ocidental. Nas regiões tropicais, subtropicais é considerada planta perene que vegeta por quatro a cinco anos;  nas regiões temperadas mais quentes, comporta-se como planta anual, pois seu comportamento é limitado no inverno. O óleo extraído de suas sementes é usado desde a Antiguidade, tanto em medicina popular como em candeias para iluminação.
No Brasil foi descrita, em 1587, pelo cronista português Gabriel Soares de Sousa, trazida pelos portugueses, para lubrificar os eixos das carroças. O nome mamoneira assim como mamoeiro deriva, provavelmente de mamão pela forma de teta do fruto e por segregar uma substância leitosa. A denominação palma-cristi ou mão de Cristo por causa de suas folhas em forma de palmas e seu incrível poder de cura. As suas sementes se agrupam nos frutos com aparência de cabecinhas. Rícino deriva do latim itina que significa inseto, por suas sementes serem parecidas com besouros ou ricin, do inglês por para designar uma planta que possui uma substância tóxica chamada ricina, nomenclatura essa usada a partir de 1694. A denominação mais comum é Carrapateira devido à  forma de carrapatos. Na África é denominada abelmeluco.

  CARACTERÍSTICAS  BOTÂNICAS

A mamoneira é uma planta ruderal, anual, própria das zonas tropicais e subtropicais. No Brasil ocorre com grande frequência em terrenos baldios, ricos em matéria orgânica e nos quintais das casas. Prefere clima quente e úmido na fase de desenvolvimento e seco na colheita.
O gênero Ricinus é monotípico e compreende tão somente as espécies referidas. A mamoneira é um arbusto lenhoso de 2 a 3m de altura, copado, monóico, anual nos países extratropicais e plurianual  nos tropicais. Suas folhas são longamente pecioladas, palmatipartidas, com 5 a 12 lobos agudos de bordos  serreados. As hastes são geralmente cobertas por uma substância cerosa, branca que lhes dá uma cor azulada ou opaca. Algumas variedades são desprovidas dessa substância, de modo que têm hastes brilhantes, que mostram sua verdadeira coloração. As inflorescências são cachos que na parte basal trazem as flores masculinas com estames multirramificados, enquanto as femininas ficam na parte apical. Os frutos  são cápsulas triloculares, com espinhos embora apresentem variedades inermes, deiscentes, isto é, abrem-se quando maduros, com uma semente em cada carpelo, deixando cair as sementes que são projetadas à distância considerável. As sementes apresentam, no albume, corpúsculos de reservas nutritivas, denominados grãos de aleurona que tem no seu interior duas estruturas: uma subapical ou globóide e outra sub-basal ou cristaloide, rajadas de branco, cinzento, castanho, preto ou de vários matizes de vermelho. O tegumento representa 20 a 25% do peso da semente; o resto é constituído pelo endosperma e pelo embrião. Pode ser cultivado em jardins para fins ornamentais.
A mamoneira é planta que cresce e se desenvolve bem em terras férteis e de boa drenagem, considerada esgotante, pois retira do solo apreciável quantidade de elementos minerais, não somente das camadas superficiais, como também das mais profundas, pois apesar de possuir raiz pivotante, o seu sistema radicular se distribui por um amplo espaço.
Quando cultivada pode ser usada  nos projetos de rotação, principalmente após milho, algodão ou qualquer outra leguminosa.

          COMPOSIÇÃO QUÍMICA

O Rícino é um óleo extraído das bagas da mamoneira. Na região Nordeste do Brasil  a planta é conhecida como carrapateira. Há muitas variedades, mas para as condições do nosso clima as mais recomendadas foram selecionadas pelo Instituto Agronômico de Campinas, que importou algumas variedades de Israel que frutificam em condições satisfatórias.
Das sementes extrai-se por pressão 30 a 50% de óleo o qual a 15ºC tem 0,960 a 0,964 de densidade; o índice de saponificação é 181;  o de congelação -18º e 84 de iodo. É solúvel no álcool e no ácido acético cristalizável e insolúvel no éter de petróleo. Referido óleo é composto por ésteres de glicerina, misturados com triglicerídeos.
Citado em antigos textos sânscritos, assim como pela Bíblia. Também nos Papiros de Ebers (1.500 anos a.C.) Na Grécia Antiga, usavam-no com o nome de aporano e tanto os egípcios como os cartagineses dele fizeram uso. O óleo foi encontrado nas pirâmides do Egito, com cerca de 4.000  anos sendo, provavelmente um dos componentes para a mumificação.
São múltiplas as suas finalidades, tendo sido empregado na iluminação por muitos povos, desde a Antiguidade. Cerca de 400 itens são resultantes do processamento do óleo de rícino. Na Medicina tem aplicações remotíssimas e a ricina, uma glucoproteina que contém uma albumina tóxica, torna-o purgativo, após ser hidrolisada pela lipase do duodeno, liberando ácido ricinoleico de efeito catártico. Além da ricina contém um alcaloide ricicina, fitotóxicos presentes no óleo e na torta. A ricina é uma glicoproteína formada por duas correntes: uma que inibe a síntese de proteína, levando à morte celular e a outra que serve para ligar a proteína à superfície da célula. A ricicina, alcaloide altamente tóxico é encontrado nas folhas e nas sementes. O óleo de rícino contém também  óleos oleicos, linoleico, esteárico, linolênico, palmítico, ácido dihidroxisteárico, riglicerídeos, ácido ricinoleico, lipase complexo alergênico. Tratadas a vapor, as toxinas ficam desnaturadas.
Os resíduos do beneficiamento contém, em média, 1,91% de ácido nítrico; 0,28% de óxido fosfórico  e 3,02% de potássio. Constituem excelente adubo.
A extração do óleo pode ser feita a frio e a quente, por compressão. O óleo com finalidades industriais  é extraído a quente, enquanto o medicinal é a frio. As bagas têm cerca de 50% de óleo e seu rendimento pode chegar a 60% em climas quentes e menos de 50% em climas temperados. No processo da extração  pelo calor ou com calor combinado com exposição a alcaloides, obtém-se subprodutos usados na fabricação de perfumes ou ácidos empregados na síntese de resinas e plastificantes. O óleo possui  1,6% de ácido fosfórico, 5,2% de óleo; 49,4% de fibras e carboidratos; 15% de cinzas e 9,1% de água. Após processamento químico especial para eliminar as toxialbuminas que contém, torna-se uma forragem concentrada e de excelente qualidade,  usada para engorda de porcos.
O óleo possui características químicas que o tornam especial, pois é composto quase 90% de ácido ricinoleico que contém uma hidroxila que o torna solúvel em álcool à baixa temperatura. É muito viscoso e com propriedades físicas específicas.
                         
 OBTENÇÃO DO BIODIESEL

O ramo da Química  que usa a mamona como matéria-prima denomina-se Ricinoquímica e é muito diversificado. A possibilidade de produção de biodiesel criou um novo mercado, absorvendo grande parte da produção mundial, além da importância social  pois emprega muita mão-de-obra de trabalhadores rurais, principalmente no plantio, controle de ervas daninhas e na colheita.
O biodiesel  é um combustível similar ao diesel derivado do petróleo, com a vantagem de ser extraído de óleos vegetais, portanto renovável, obtido de fonte limpa e segura, em grande quantidade e por preço razoável. Produzido em pequenas usinas a partir da reação de transesterificação, resultante da mistura de óleo com álcool em presença de um catalisador alcalino. O álcool pode ser etanol ou metanol, dando-se preferência para o etílico, obtido na natureza. Dessa reação além do biodiesel resulta a glicerina usada na indústria farmacêutica e de cosmético. Para cada 100 l de biodiesel são produzidos 10 a 15l de glicerina. Embora relativamente simples a sua produção deve ser feita obedecendo rigorosamente padrões de qualidade para não prejudicar o funcionamento dos motores.
É bem mais vantajoso tanto pela sustentabilidade quanto pelo aspecto econômico. Gera baixos índices de poluição e por ser energia renovável, depende só do plantio de oleaginosas no campo, diminuindo o êxodo rural e gerando emprego e renda do campo. A desvantagem é que necessita de grandes áreas agrícolas para cultivo, concorrendo para o desmatamento e redução das reservas florestais.
Alguns químicos avaliam que sob o ponto de vista tecnológico, a produção de biodiesel à base de mamona criou um conceito científico em relação à vida útil dos equipamentos utilizados. Argumentam que corroe os pistões, o que pode ser evitado se forem cobertos com alumínio, aumentando o custo da produção e inviabilizando o processo mecânico. Entretanto, ao contrário das demais oleaginosas a agregação de valor na cadeia da mamona é reduzida. O óleo de rícino é o 2º óleo vegetal mais cotado internacionalmente e o seu preço desconsidera os fatores de produção  bastante superior ao do diesel mineral. Para suprir a demanda de biodiesel, a ricinocultura ocuparia uma área de 530mil hectares.
Para obter melhores e mais detalhadas informações, acesse o link: www.biodiesel,gov,br.  do Programa Brasileiro de Produção de Diesel.
 Um hectare de mamoneira rende 750kg de óleo. Os estados de maior produção no Brasil são: Bahia, Pernambuco, Ceará, Minas Gerais e São Paulo.
                       
 IMPORTÂNCIA INDUSTRIAL

Na Indústria é usado para fazer sabão, assim como sabonetes. Tem larga utilização em perfumaria, principalmente na fabricação de unguentos e pomadas. Usa-se também, em curtumes para amolecer couros e peles, assim como na produção de tintas, vernizes, pergaminhos, máscaras contra gases. A demanda pelo óleo vem crescendo significativamente na indústria como lubrificante de grande eficácia em motores de elevada rotação e alta velocidade, por ser viscoso e ter grande aderência mesmo em temperaturas elevadas, ser pouco solúvel em gasolina, não deixar resíduos e congelar-se em baixíssima temperatura. Superior aos óleos minerais na lubrificação de motores de avião.
O consumo de óleo de mamona tem aumentado consideravelmente com regularidade. China, Índia e o Brasil são os maiores exportadores, seguidos dos EUA, da França e Reino Unido. Inicialmente o Brasil exportava quase toda a sua produção de bagas. Nas últimas décadas passou a industrializar parte da sua produção.
Compõe fios e tubos de carros, aviões, linhas telefônicas, ceras, lubrificantes,  tintas, materiais elétricos, filtros industriais. Usado, também para recapear pneus usados, com a massa do polímero, resultando um pneu novo. Substitui placas de gesso em casos de fratura, bem mais conveniente durante os banhos. Óleos hidrogenados, detergentes, ceras, plastificantes, protetores, óleos desidratados, lubrificantes de superfície, óleo de corte, fluido hidráulico,  usado na indústria têxtil como Nylon 6-10 e a partir do metilricinoleato, como Nylon 11, usado na indústria automobilística e aeronáutica. Após desidratação torna-se secativo.
Já foram publicados quase 500 trabalhos de pesquisa, incluindo teses de mestrado e doutorado, geralmente apresentados em eventos patrocinados pela Petrobrás, Embrapa e governo de Sergipe, em Congresso Brasileiro da Mamona.
Na indústria de Cosméticos é muito solicitado por suas propriedades emolientes, penetrando na pele estimulando a produção de colágeno e elastina, prevenindo a formação precoce de rugas, fabricação de batons e vaselina. Usado, também para acne, dermatites, pele seca, furúnculos.
A resina obtida da mamona surge como uma boa promessa na área de estética, com a produção de fios finos para amenizar rugas de expressão e combater a flacidez da pele. Substitui com eficiência superior, os fios de polipropileno derivados do petróleo e sintetizados na Rússia. O de mamona não apresenta rejeição.
A fábrica Sanbra da Bahia processava mensalmente milhares de toneladas de óleo, advindos de campos de cultivo de mamoneira de Irecê, Senhor do Bonfim e Jacobina, cuja produção era totalmente enviada para a Europa.
Além do óleo a mamoneira devolve ao solo 20 toneladas de biomassa. Suas folhas servem de alimento para o bicho-da-seda. Do caule extraem-se celulose e papel.

 VALOR NUTRITIVO E MEDICINAL

Na China o Ricinus é usado na alimentação após purificação para retirar seus princípios acres e irritantes.  Nas Molucas, Java e também na China, o empregam em mistura com o cal obtendo uma argamassa, semelhante ao betume para calafetar as embarcações.
Além desses empregos, utiliza-se na indústria farmacêutica, em manipulação de certos purgativos, como desobstruente intestinal. Por ser tóxico pode provocar aborto. Usado em iluminação, como lubrificantes e os seus resíduos para adubo. Começou a ser utilizado como lubrificante  há pouco mais de um século, principalmente nas estradas de ferro inglesas da Índia. No Rio de Janeiro em fins do século XIX foram instalados  vários gasômetros para fornecimento de iluminação, a partir do óleo de mamona. Também nas jazidas de ouro de Minas Gerais, demostrando ser superior aos óleos minerais.
Na indústria alimentícia, devida à alta toxicidade da ricina, é pouco utilizado, salvo como aditivo alimentar, aromatizante, conservante de chocolates, doces e suas embalagens.

    EMPREGO EM MEDICINA POPULAR

O azeite de carrapato, extraído artesanalmente antes da purificação é usado sob a forma de unguentos para aliviar as dores de lesões articulares, musculares, dores nas costas; enfartamento ganglionar, verrugas, alergias. Dores de ouvido, entorses, dores de cabeça, doenças de pele. Após refinamento é usado, em gotas, para aliviar cólicas, queixas digestivas, hemorroidas (chá das folhas para banhos de assento); problemas de fígado e vesícula, distúrbios do sono, hiperatividade. Estimula o sistema imunológico, coadjuvante no tratamento da esclerose múltipla, paralisia cerebral, artrite reumatoide, mal de Parkinson.
Na antiga Grécia era usado como antiinflamatório, antioxidante e, adstringente.  Também para queda de cabelos, constipação intestinal, como laxantes, micoses, distúrbios menstruais, acne, enxaqueca, queimaduras solares.
Adesivos, bactericidas, fungicidas. Também como vaso-dilatador periférico, retirando as células mortas das feridas e estimulando o crescimento de novas. Aumenta a contração uterina de parturientes, associado a outros medicamentos. 

O RÍCINO, DO ANONIMATO PARA PRÓTESES EM MEDICINA

Da mamona se extrai um  polímero que sintetizado transforma-se num biopolímero que tem capacidade de interação com as células do corpo humano e não provoca casos de rejeição. Essa pesquisa foi desenvolvida pelo prof. Gilberto Orivaldo Chierice,  do Instituto de Química da Universidade de São Carlos – USP, recebendo a patente pela FDA (Food and Drugs Administration), responsável pela liberação de novos alimentos e medicamentos.
Desde 1991, esse biomaterial  vem sendo testado no Brasil, sendo aprovado 8 anos após as pesquisas. Milhares de pessoas vítimas de acidentes automobilísticos, por motocicletas, armas de fogo e tumores já foram beneficiadas com próteses para substituição de ossos, como da mandíbula, da face ou mesmo do crâneo; também como suporte na coluna cervical, testículos, pênis, globos oculares e até gengivas. O sangue infiltra-se nos poros das peças implantadas, substituindo no espaço de dez anos as células ósseas, pois  as cadeias de ácidos graxos da mamona tem estrutura semelhante a que existe na gordura.
Os testes químicos e biológicos referentes à citotoxicidade foram custeados pela empresa Doctors Research Groups de Plymounth em Connecticut, distribuidora exclusiva nos EUA e Canadá. Nos EUA recebeu o nome de RG Kriptonita, para lembrar o planeta-origem do Super-Homem.
O Poliquil é exportado em kit contendo 2 ampolas do poliol e pré-polímero, extraído das sementes da mamona, mais carbonato de cálcio.
Funciona como regenerador de ossos. No INCOR faz-se com o polímero  coração artificial extracorpóreo para ser usado por pacientes enquanto aguardam um transplante cardíaco.

              AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Diogo Gualhardo Neves pela sugestão do tema.
Ao primo Murilo Mário Serra Durans, pelas informações referentes à produtividade da mamona e processamento do óleo na Bahia.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A MANDIOCA – O PÃO DA TERRA



No Período Colonial, quando as exportações giravam em torno do açúcar produzido nos engenhos do Nordeste, reinava  ainda nos povoados um ambiente tranquilo de auto-suficiência.  A produção do algodão, arroz e milho  era insignificante, dava  somente para atender as necessidades dos senhores e seus escravos. Não havia interesse na produção em escala maior, que visasse à exportação. A mandioca, produto imprescindível à alimentação dos escravos, índios e primeiros povoadores, era cultivada em lavouras entremeada com plantas de ciclo mais curto como  milho, amendoim e feijão.
A  primeira referência à mandioca, no Maranhão, foi feita pelo capuchinho Claude d´Abbeville que, com alguns frades da Ordem integraram a expedição comandada pelo francês Daniel de La Touche, em 1612. Por essa época a mandioca já era cultivada pelos índios Tupinambá e  Guarani que a chamavam “macachet,  como qualidade de raiz procedente de um arbusto de folhas iguais as da figueira de que se faz a farinha e o cauim. Raiz muito boa. Também igual à anterior mandioca-eté e mandioca-caué, cujas raízes são mais grossas que as anteriores e boa para papa e bebida chamada caracu.”
O Pe. Manuel da Nóbrega ouviu dos índios que quem lhes indicou  o uso dessas duas plantas providenciais foram duas pessoas, uma das quais se chamava Zomé. Outras tradições aceitam que o nome é corruptela da palavra Zemi, usada no Haiti, indicada pelos deuses que os índios adoravam, alegando que lhes havia ensinado o modo de usar o fogo e as raízes nutritivas.
Foi Pisa quem forneceu as primeiras informações científicas sobre a mandioca, em 1646, descrevendo-a como planta indígena do Brasil, podendo desenvolver-se até 30º de latitude Sul e na zona tropical até a altura de 1.000m.
Mesmo sendo de produção bem rudimentar, a Coroa solicitava continuamente a pouca farinha aqui fabricada, para alimentar os lusitanos que não tinham terras para cultivar, deixando  muitas vezes, à míngua, as populações nativas.
Assim como ocorreu em toda a América Latina, coube ao Brasil a produção de alimentos e de matérias-primas para os grandes centros industriais europeus, uma vez que não havia mercado para a industrialização de novos países.
Barata, resistente, nutritiva, sem a presença de glúten, foi eleita pela ONU, o alimento do século XXI.
                                     
  MANDIOCAETIMOLOGIAORIGENS

O vocábulo mandioca deriva do tupi madi og, mandió ou mani-oca, ou tipi óka que significa coágulo e tem como sinonímia a mandioca brava ou mandioca-amarga,  termo para designar a espécie Manihot esculenta  ou M.utilissima de grande toxicidade, em decorrência do elevado teor de ácido cianídrico. Seu consumo só pode ser feito  após processo especial. Dessa espécie são produzidas as farinhas e bebidas.
A mandioca-mansa, também chamada aipim ou macaxeira, pertence à espécie M.dulcis ou M.ahipi e designam tipos de baixo teor de ácido, podendo ser consumidas in natura, cozidas, assadas ou fritas, retirando facilmente a casca. Ambas as espécies constituem a base da alimentação de certas regiões tropicais, principalmente as áreas centrais da América do Sul e da África. As variedades são múltiplas, principalmente com o uso de técnicas de seleção e melhoramento genético.
A origem da mandioca se perde nos tempos. Alguns historiadores asseguram que já existia em nosso Continente há uns 7mil anos. Outros mais céticos afirmam que teria se originado no sudoeste da Amazônia e daí disseminada inclusive na Meso-América (Guatemala e México). Somente nos últimos séculos seu valor nutricional se tornou conhecido.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os nossos silvícolas já a consumiam diariamente, tendo sido citada na carta que Pero Vaz Caminha, escrivão-mor da frota de Pedro Álvares Cabral, enviara a D. Manuel, monarca português.
Aceita-se, sem discussão, ser a mandioca nativa no Brasil, no Nordeste e região central, sendo os povos  tupi-guaranis responsáveis pelo domínio comestível da mandioca, base da sua alimentação, espalhando-se para os demais povos indígenas como os Cariri, no Ceará e os Jês, na Amazônia. No Brasil-Colônia, servia de alimentação para índios, escravos e colonos. O Pe. Anchieta chamou-a de pão da terra. No século XX, Câmara Cascudo referiu-se à mandioca, pelas suas qualidades nutritivas, como Rainha do Brasil.
Os historiadores dizem que os bandeirantes em suas expedições iam plantando mandioca á medida em que alongavam a marcha para o interior a fim de colhê-la na volta e assegurar o abastecimento de farinha, chamada “de guerra”.
Os portugueses levaram a mandioca para a África, onde se tornou  importante fonte de alimento, porém é aqui, neste lado do Atlântico, que há a maior variedade de espécies dessa planta tão resistente e tão pouco exigente em matéria de nutrientes do solo.  Foi com os índios que os portugueses aprenderam  a alimentar-se da mandioca e suas raízes, seguindo suas receitas como beiju, angu, escaldado, paçoca e criando outras como bolos, broas, ampliando assim, o imenso leque de opções culinárias e da nossa gastronomia. Processada industrialmente para fabricação de  farinhas, diversificando a nossa indústria alimentícia.
                         
CARACTERÍSTISTICAS  BOTÂNICAS

Arbusto herbáceo, da família das Euforbiáceas, cuja raiz, chamada tubérculo contém importante reserva de amido. Planta com  porte variável, dependendo do tipo de ramificação com 1,50 a 3,00m de altura, caule delgado e ramificado, com folhas caducas, de hastes ou pedúnculos longos com 30 a 40cm e podem apresentar coloração que varia do verde ao roxo avermelhado. O limbo é do tipo digitiforme e apresenta cinco a sete folíolos, de largura variável. As flores são assexuadas, pequenas, amarelas, do tipo racimo, com as flores femininas localizadas na base do órgão floral. A flor estaminada floresce seis a dez dias antes das flores femininas, produzindo o néctar que atrai os insetos para a polinização, notadamente a abelha produtora de mel e os insetos do gênero Melipona. Embora a protogenia impeça a autofecundação no mesmo racimo, as inflorescências surgem, em épocas distintas, nas axilas das ramificações ou nas extremidades dos ramos, o que permite o cruzamento entre flores de uma mesma planta. Os frutos são cápsulas ovoides, com três divisões que encerram cada uma, uma semente. Estas são de coloração clara com manchas escuras, elípticas e têm na extremidade a carúncula. O embrião é envolvido pelo endosperma rico em óleo. As raízes são tuberosas, com forma, coloração e tamanho  variáveis. Geralmente são cilíndricas, cônicas ou fusiformes, polpudas, com casca pardacenta e massa branca, podendo atingir até 1m de comprimento por 22cm de diâmetro. As raízes adultas apresentam uma película de cor marrom, que se destaca facilmente e pode ser prontamente substituída por outras camadas de células. Existe uma associação entre a cor da película e a toxicidade, devida ao ácido cianídrico derivado do glucosídeo linamarina que sofre a ação da enzima linasa.
A seiva da mandioca brava contém ácido cianídrico e a raiz por ser altamente tóxica não pode ser comida em condições naturais. A sua propagação é vegetativa, através de pequenos pedaços do caule  chamados ramas ou manivas.
             
 CONDIÇÕES FAVORÁVEIS AO SEU CULTIVO

A mandioca é uma planta tipicamente tropical e pode ser cultivada numa faixa que vai de 30° de latitude N a 30° da latitude S, geralmente em clima quente  e úmido, interrompendo-se o crescimento vegetativo em temperaturas inferiores a 10°C. As maiores produções  têm sido obtidas em altitudes abaixo de 1.500m, com temperatura média de 20°C. A capacidade de resistir a períodos prolongados de seca, confere-lhe uma vantagem especial sobre os cereais. Em climas com estações definidas, a mandioca paralisa o desenvolvimento em condições de  temperatura e umidade baixas, entrando em período de dormência que pode durar dois a três meses. Com o início das chuvas e elevação da temperatura, volta a desenvolver-se. Os solos ideais são os silico-argilosos, de textura arenosa, com bom nível de matéria orgânica. Em solos ácidos deve-se aplicar calcário antes do plantio, para corrigir a acidez.
Por ser de ciclo evolutivo longo, sua colheita é geralmente feita de 10 meses a três anos, após o plantio, devendo-se cortar os colmos a 15 ou 20cm do solo para facilitar a extração ou arrancamento das raízes.
                          
                VALOR NUTRITIVO

Apesar de rica em amido, a mandioca é escassa em proteínas, gorduras e vitaminas. As raízes  apresentem baixo teor proteico, porém as folhas chegam a apresentar 185mg de proteínas;  razoável teor de vitamina B¹, fósforo, ferro. Na fração amido o principal componente é a amilopectina, que representa 80% de carboidratos presentes na raiz, além de 70% de umidade, 22% de amido, 55% de açúcar, 15% de proteína, 0,4% de lipídios, 15% de fibras e 0,5% de cinzas. Cem gramas de mandioca fornecem 159 kcal., gorduras saturadas e monossaturadas 0,1g; 14 mg de sódio; 27mg de potássio;  21mg de magnésio; 0,3 mg de ferro; 16mg de cálcio; 38g de carboidratos; 1,8g de fibras; 1.7g de açúcar; 1,4g de proteínas. Os teores de vitaminas são baixos como a vit. A com 13 IU; B6 com  0,1mg ou ausentes como as vitaminas C e B¹². Não apresentam albuminoides, como o glúten e nem colesterol, podendo ser usada, sem causar problemas,  em pacientes celíacos.
Os principais subprodutos obtidos são: tapioca, polvilho, farinhas d´água e seca, de largo consumo pelas populações mais pobres. Nos grandes centros a mandioca é industrializada, extraindo-se produtos para o consumo quer como alimento ou como matéria-prima.
Na Culinária, aliou-se ao açúcar e ao coco, fazendo parte da cozinha tradicional brasileira e na indústria  de confeitaria, para fabricar bolos, tortas, biscoitos, broas, sequilhos, roscas, pães. A farinha, o principal subproduto é consumido in natura, na comida, farofa, purê,  pirão, pandú, escaldado, angu, chibé, tiquara, quibe, escondidinho,  lasanha ou misturado com café, leite, frutas como banana, manga, melancia, doces diversos como o de leite. Pode ser consumida com carnes e peixes diversos, ovos fritos, mariscos e aves  como recheio de perus e pernil de porco. O polvilho é usado para fazer bolos, biscoitos, sequilhos, roscas, pão, mingau, cuscuz, beijus ou tapioquinha, pé-de-moleque e outras guloseimas.
Costuma-se misturá-la com trigo na fabricação de pão para  reduzir a importação do cereal.
A mandioca depois de ralada e espremida, produz uma massa seca com a qual se produz a farinha e um líquido que passa por processo de decantação, após várias lavagens, cujo resultado é a goma ou tapioca molhada que depois de seca transforma-se em polvilho. Põe-se um pano  fino sobre a massa e sobre ele cinza ou fubá para absorver a água contida na fécula. Os pequenos blocos formados são postos sobre toalhas ou tabuleiros e dessecados ao sol. Pode ser doce ou azedo, sendo que a primeiro resulta da goma fresca que passa por secagem antes da fermentação, tornando-se insípida e inodora. O azedo é produzida a partir da goma fresca, seca e posteriormente fermentada,  gerando um paladar azedo e bem mais valorizado.
O polvilho, além de ser utilizado para preparar mingaus pode ser usado como goma para engomar roupas.
A tapioca é obtida quando o polvilho ainda está úmido, passando em peneiras grossas e secando em fogo brando. É leve, nutritivo e usado para fazer bolos, pudins.
Como não existe unanimidade, principalmente em relação ao valor nutritivo e curativo das plantas, há uma corrente que defende o uso da tapioca em nosso cardápio, pois o alto teor de amido, da massa resultante da extração da mandioca,  consegue-se uma goma ou polvilho que ao  ser espalhada sobre uma superfície aquecida, transforma se em tapioca. Esta forma um carboidrato com razoável concentração de aminoácidos, determinado tipo de fibra, ferro, cálcio e fósforo, além de vitaminas do complexo B e uma boa quantidade de potássio. Embora a tapioca tenha um alto índice glicêmico, a goma por ser composta predominantemente de fibras insolúveis, atua como um escudo à absorção de açúcar. Justamente por ser um tubérculo, modula uma secreção de moderada para baixa em termos de carga insulínica, de liberação lenta. Por conseguinte, torna-se uma opção bem vinda aos portadores de Diabetes I e II. e, por ter uma boa densidade de glicose auxilia o aumento de serotonina no cérebro, neurotransmissor associado à sensação de bem estar e prazer.
Outra corrente, no entanto, recomenda que a tapioca seja enriquecida, pois embora sem glúten e com 0% de colesterol, a sua massa não é absolutamente nutritiva por ser formada basicamente por carboidratos, gerando  em 50g  68kcal e apenas 1,6g de proteínas.

                    TIPOS DE FARINHA

A mandioca depois de ralada e espremida produz uma massa seca e um líquido. A farinha se origina da massa, após o processo de torrefação em forno.
Os tipos de farinhas mais comuns no Nordeste são a farinha seca, branca com grãos finos e a farinha d´água, mais procurada, além da uarini e surui. A farinha dágua  é amarela-creme apresenta textura grossa com grãos resistentes, utilizada pelas populações de baixa renda, para substituir o arroz e o pão. Atualmente com os preços elevados, decorrentes da carência de braços na lavoura da mandioca, e dificuldade para fazer um produto de melhor qualidade, não é encontrada com facilidade. As mais solicitadas são a de Carema, produzida no povoado de Areias, município de Santa Rita e a Biriba, fabricada no interior de Pinheiro, nos povoados dos Pirrós, Bacabal e Tatuzinho. Na Biriba de cor amarelo quase creme, os grãos tem o mesmo tamanho, é mais torrada e também mais gostosa. Entretanto a mais conhecida, por ser mais antiga e encontrada em vendas na BR 135 é a  de Carema,   mais amarela, mais leve e menos saborosa.
Outro tipo de farinha usado por povos indígenas, a farinha de carimã é muito parecido com o processo usado para obter-se a farinha d´água, deixando a massa vários dias em água corrente, lavá-la para retirada da casca, usa-se uma peneira grossa até passar toda a massa. O depósito do fundo da vasilha é decantado até perder o odor desagradável. Depois fazem-se  bolos obtidos do sedimento que são postos ao sol para secar.

                MÉTODOS UTILIZADOS

A técnica de obtenção dos dois tipos de farinha  diferem, sendo que para produzir a farinha d´água a mandioca deve passar uns dias de molho em água. Após o cozimento a farinha tem dez vezes mais vit. A do que a obtida da mandioca na época do descobrimento.
Outros produtos a partir  da mandioca são: tapioca  de vários tipos e texturas. A do Pará parece sagu, com grânulos maiores e usada para acompanhar o açaí. A nossa, do Maranhão, se distingue em um tipo para bolos e outro para beijus. O polvilho, mais fino também pode ser azedo, para fazer pão de queijo e bolo podre e o doce, usado na confecção de biscoitos, sequilhos. Há ainda a farinha mimosa ou branca, de excelente qualidade e usada na preparação de papas e mingaus para crianças, idosos e convalescentes.
Há uma infinidade de pratos e bebidas feitos com mandioca que são usados pelos povos indígenas de várias regiões: angu, tiquara, chibé, pirão ou escaldado, pandu, caxiri, cauim com amendoim, aaru (com tatu moqueado), giroba (tipo de cauim), arumbé (com pimenta, kanapé (espécie de pão redondo), manipuera, pisaregue, paparuto. Chama-se, também manipueira a água que sai das lavagens da mandioca e impróprias para alimentar animais, representa 25 a 35% de mandioca. Usada, com restrição, como defensivo agrícola, vinagre e adubo. É rica em cálcio, enxofre, fósforo, ferro, magnésio, nitrogênio, potássio e zinco.. Com as folhas faziam o ki-pu e usadas, também como forragem na alimentação do gado.
No Pará, um dos principais pratos, além da maniçoba e tacacá é o pato no tucupi. Este é o líquido que escorre da massa prensada da farinha puba que depois de fervida, transforma-se em substância xaroposa e escura – tucupi preto. Depois de temperar com sal, pimenta a alho e exposto ao sol transforma-se no tucupi amarelo, simples ou pode ser fervido.  Às vezes fico imaginando quantas centenas de índios morreram para finalmente descobrir-se como neutralizar o ácido cianídrico. 

DISTINÇÃO ENTRE A MANDIOCA E A MACAXEIRA 

Sob o ponto de vista comercial, a mandioca tem uso industrial podendo ser usada não só na indústria alimentícia, como na produção  de celulose, álcool, tiquira, cola, corantes, enquanto o consumo da macaxeira é doméstico. Quanto à toxicidade, a mandioca não pode ser consumida in natura devendo ser processada, pelos elevados teores de ácido cianídrico, superiores a 50ppm. Esse ácido possui um íon de ferro que combinado com o sangue bloqueia a recepção de oxigênio, causando asfixia.
A casca da macaxeira é avermelhada na frente, mais fina podendo ser descascada à mão. As folhas são mais alongadas e afuniladas verdes assim como suas hastes, enquanto as da mandioca, as folhas e hastes são vermelhas com veios verde-escuros e uma parte mais abaulada na extremidade. A casca é mais grossa de cor marrom.

     IMPORTÂNCIA ECONÔMICA

De grande relevância econômica  é a principal fonte de carboidratos para milhões de pessoas, principalmente de países em desenvolvimento. O Brasil possui  2 milhões de hectares plantados o que o torna um dos maiores produtores do mundo, com 90 milhões de toneladas. No Nordeste é associada a outros cultivos de ciclo curto como  feijão, milho, gergelim, amendoim.
A demanda por sua fécula ou amido tem crescido de forma substancial, principalmente para o setor de panificação para misturar com o trigo, reduzindo as importações. 
Para melhor aproveitamento da mandioca estão sendo utilizadas técnicas junto a órgãos ligados ao desenvolvimento agrícola, o que tem ampliado a produção em até 30 toneladas/ha principalmente entre populações quilombolas.
Da mandioca prepara-se a tiquira, bebida muito utilizada entre nós e até exportada.
               
MÉTODO ARTESANAL PARA O PREPARO DA FARINHA

O método aqui descrito é utilizado na Fazenda Canaã, município de Bequimão, cujo proprietário  Fransoufer, emprega ainda equipamentos muito rudimentares, como o fazem nossos índios:
“No início das chuvas planta-se a maniva, pequenos pedaços do caule da planta. Até a colheita fazem-se duas capinas, a primeira no primeiro trimestre após o plantio e a segunda no 5º mês. Nesse período podam-se os galhos adventícios para não tirar a força da plante e que servem de ração animal ou cozidas, como verduras, para o lavrador. Essa operação chama-se dicotar. Nove a dez meses depois está no ponto de arrancar seus tubérculos, usando-se um boi-cavalo com cangalha para carregar os caçuás com a mandioca colhida.
Todo esse trabalho é feito por mutirão, envolvendo 10 a 12 pessoas; o trabalhador não é assalariado, recebendo cotas da farinha produzida.
Quando se pretende fabricar a farinha d´água, as raízes são acondicionadas em saco de aniagem ou nylon e postos num riacho para apodrecer e se  tornar puba. Depois, então, retiram-se  as cascas que se soltam com facilidade, e a polpa é levada para a casa de forno para ser amassada e posta num tipiti, pendurado num pau de sarilho. O líquido que escorre numa gamela colocada embaixo é descartado, jogando-se em área não frequentada por animais, por ser muito tóxico. A massa após compressão  é transferida para uma gamela onde é peneirada, separando-se a caroeira, que contém fiapos, grânulos, impurezas e é utilizada na alimentação de animais. O material peneirado vai para um forno de barro, pré-aquecido. Daí pra frente a operação fica sob a responsabilidade da forneira encarregada de mexer a farinha, sem parar,  até chegar ao ponto. Após resfriamento a farinha é acondicionada em paneiros feitos com palha de babaçu e forrados com folhas de guarimã, que a mantém seca e fresca por vários meses.
Já para fazer a farinha seca, o processo é um pouco diferente: a mandioca colhida vai para a casa de forno com as cascas que são raspadas por alugados que se agrupam ao redor do esteio, munidos de uma faquinha. As raspas são aproveitadas para ração animal. Depois de ralada é levada para um caititu, espécie de bolandeira com roda e manivela movida à tração humana. Só aí a massa obtida é levada para o tipiti para espremer. O líquido resultante é usado para extrair a tapioca, após muitas lavagens. O líquido obtido inicialmente é usado para obter o tucupi. Após a prensagem, a  massa é peneirada e vai para o forno onde é mexido continuamente, até obter o ponto, dando alguns estalos. Acondiciona-se a farinha branca obtida em paneiros, seguindo o processo usado para a farinha d´água. O sedimento das lavagens sucessivas é posto em esteiras e expostas ao sol para secar. Depois de completamente dessecada, quebram-se os torrões e passa-se em peneiras de diversas malhas, de acordo com a tapioca que se deseja. Numa só fornada é possível produzir 20 k de farinha. A macaxeira, também se presta para a produção de farinha, mas as pessoas preferem comê-la cozida ou assada.  Em menor escala, pode ser feita em tachos sobre fogão á lenha.”
A digestibilidade da farinha d´água é melhor, pois ao ser posta na água já sofre pre-digestão pelas bactérias fermentativas.

           DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

A mandioca em menor ou maior quantidade é cultivada em quase todas as regiões do mundo, exceto a Europa e a América do Norte. Na África os maiores produtores eram o Zaire  e a Nigéria, equiparando-se à Indonésia. O Brasil, até a década de 1980 foi o maior produtor e exportador. Atualmente a Nigéria é o maior produtor mundial. Atualmente cerca de 100 paises cultivam a mandioca. Muito utilizada pelas populações pobres da Colômbia e das Filipinas.
Os   estados brasileiros onde a produção é maior são: Bahia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco e São Paulo. Só na Amazônia existem atualmente 130  variedades de mandioca  que são preservadas  intactas, pela EMBRAPA, sem cruzamentos, como repositório de estoques genéticos importantes de serem preservados para a própria economia indígena. 

         A LENDA DA MANDIOCA

Há várias lendas sobre a Mandioca, dependendo da tribo indígena. Escolhi esta por ser a mais conhecida:
“Maní, criança índia faleceu repentinamente de doença misteriosa, sem dor nem sintomas. Foi sepultada dentro da própria casa, sendo seu túmulo regado diariamente conforme o costume indígena. Decorrido algum tempo, brotou da cova uma planta que era desconhecida pela tribo e por essa razão deixaram-na desenvolver-se. Quando atingiu certa altura, a terra em torno dela fendeu-se e ao cavarem junto às raízes, julgaram reconhecer nos tubérculos, o corpo da pequena Mani. Comeram os tubérculos e batizaram a planta de mandioca (casa de Mani). Daí deriva o nome maniva, alimento básico das populações pobres.
Dentre os heróis civilizadores dos povos primitivos,  Mani é um dos raros que se apresenta sob a forma infantil.

                 A FARINHA NA MPB

Como alimento de populações interioranas é natural que a farinha seja um dos temas mais escolhidos no nosso cancioneiro popular: carimbó de Pinduca, baião Farinhada de Luiz Gonzaga, Farinhando de Joana Bittencourt e muitos outros ritmos, exaltando esse produto que alimenta nossa população.    


             
        TERMINOLOGIA USADA NESTE TEXTO

Cofo – tipiti – caititu – bolandeira – peneira – pau de sarilho – puba – carimã – cangalha – caçuá.
Paneiro: balaio de tramas largas feitas de talas de marantáceas.
Devida a extensão do texto não descreveremos cada artefato usado na produção artesanal.
  
AGRADECIMENTOS

- Ao meu marido Fransoufer, pelas informações detalhadas sobre os processos usados na sua fazenda, desde o plantio até a fabricação da farinha.
- Á amiga Malu pelas informações enviadas on-line.
- À confreira Joana Bittencourt, presidente da APLAC, pela canção de sua autoria apresentada no Festival de Música Popular em Pinheiro.
- Ao Dr. Marco Antônio Teixeira, juiz de Direito com propriedades no sul do Maranhão, por repassar-me alguns termos usados naquela região.