MOEMA

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PAPIRUS DO EGITO

terça-feira, 19 de março de 2013

FESTA DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA EM PINHEIRO

 
 

 


 
”As pessoas que eu nomeio são pessoas que existem, os fatos que estou contando vossa memória esqueceu”. Jorge de Lima

II PARTE – O Largo ou Arraial

Durante o ano tínhamos muitas festas religiosas, resquícios da resistência das camadas populares no âmbito das crenças religiosas, às vésperas das grandes mudanças sociais que se processariam no mundo, a partir da segunda metade do século XX, com reflexos nas práticas sociais e no cotidiano da vida comunitária de uma pequena cidade em formação, onde se travava uma luta surda entre a cultura letrada dos padres italianos pertencentes à Ordem Missionários do Sagrado Coração, chegados em Pinheiro em 1946, e a cultura popular, cujas manifestações privilegiavam a religiosidade herdada dos primeiros moradores. Os padres começaram a desagradar a população quando extinguiram os festejos de São Benedito, comemorados na Matriz durante o Natal, transferindo-os para outro local e data, passando, a partir daí a realizar-se a Bênção do Santíssimo. Depois a retirada dos santos do altar-mor, substituindo-os por uma cruz, abolição de algumas manifestações como as ladainhas, ritos como o dobre do sino quando algum morador falecia e outras pequenas mudanças que não estavam agradando a população. Para evitar maiores animosidades os padres mantiveram a Festa do Divino, os Pastorais. Também foram mantidos os festejos de São Sebastião no dia 20 de janeiro, o mês Mariano com a coroação de Nossa Senhora no dia 31 de Maio, as festa do Padroeiro em 31 de julho e a de São Raimundo em 31 de  agosto. As festividades em homenagem a São Benedito foram transferidas para uma igrejinha reconstruída na antiga Praça da República, atualmente Praça de São Benedito, onde os fiéis podiam, sem a censura dos padres, curtir o tambor de crioula.
Porém a festa mais aguardada por toda a população era a de Santo Inácio, Padroeiro da cidade que se realizava no dia 31 de julho, dia em que o jesuíta faleceu em 1556, com 65 anos de idade.
No ano de 1958 a festa fora planejada com muita antecedência, elegendo-se a Comissão Organizadora da Festa,presidida por Orzete Amorim, subdividida em várias outras: uma encarregada de arrecadar fundos para os festejos  era formada por moças e senhoras que sairam nas ruas, pedindo no comércio, dinheiro e prendas para o leilão. Antigamente era acompanhada por alguns músicos e anunciada pelo pipocar dos foguetes. Durante nove dias foram rezadas ladainhas na Igreja, sendo que cada noite fora de responsabilidade de uma classe trabalhadora ou Associação Religiosa: comerciantes, comerciários, pecuaristas, agricultores, barqueiros, pescadores, associados do Círculo Operário, funcionários públicos e das associações religiosas: Vicentinos, Filhas de Maria, Zeladoras do Sagrado Coração e até dos estudantes. Cada uma dessas classes esmeraram-se em tornar a sua noite a mais festiva, animada e rendosa. Os objetos mais valiosos foram destinados a rifas que “corriam” na noite da novena da comissão que os ganhara. O largo fora  decorado com bandeirinhas e argolas de papel de seda e arcos de pindoba. Nos dois lados da igreja, Dedeco Mendes e Orzete Amorim construiram os seus botequins com bebidas geladas, quentes e tira-gostos. Em frente a essas estruturas com paredes e coberturas de palha, montaram mesas e cadeiras dobráveis para os freqüentadores. Os mais assíduos eram Nadico, Gomes, Leopoldo, Santinho, Josué Azevedo, Edmilson, Mário Castro, Ubaldino e Zé Pessoa, Zezinho, Joacy, Gregório, Alberto,e Claudionor, Rafael Soares,
 
João Castelo, Zé Veloso que geralmente ficavam no Dedeco, enquanto o pessoal do bairro da Matriz, Baril, Esmeraldo, Dico Aroucha, Floriano, os irmãos Congo e Inácio Sá, Inácio Ribeiro, Wilson Peixoto, Zé Peixoto que não perdia uma só festa de Santo Inácio, preferiam ser atendidos por Adalberto Amorim que dava uma mãozinha para o irmão. Nessas noites promoveram-se pequenos leilões, queimaram-se foguetes, instalando-se um serviço de alto-falante comandado por Hildebrando Reis com as indefectíveis mensagens  ("de alguém para alguém
com muito amor") e os inesquecíveis programas de calouros. Aymoré, Inacinho Castro, Glorinha Aroucha foram grandes atrações, cantando El reloj, Oh! sol e Banho de lua, respectivamente. Até Niedja, Edméa e eu, organizamos um trio e cantamos nesse ano.A música ensaiada várias vezes não dera certa e nós cantamos, em separado, outras músicas: Contigo en la distancia, Suave é a noite e eu cantei de costas para a platéia Ouça de Maysa.Entre 21:00h e 21:30h, os jovens e senhoras voltavam pra suas casas, enquanto os homens permaneciam nos botequins para a “saideira”.
Entretanto, o auge da festa fora a noite do dia 31, após a procissão. A cidade toda era uma explosão de animação e alegria que se irradiavam do Largo e se refletiam no semblante dos pinheirenses e visitantes de outras plagas. Já a postos, as doceiras com seus tabuleiros de doces e outros quitutes: as mais antigas com o seu ponto cativo, trouxeram de casa uma mesinha onde expuseram as guloseimas e sentadas num banquinho atendiam os compradores. As mais novas circulavam pelo largo com o tabuleiro na cabeça e um tamborete na mão, usado na hora da venda. As mais afamadas eram: d. Emília, as Amorim, Virgínia Sessenta e umas senhoras pretas, altas, do bairro do Sete que vendiam inigualáveis corações recheados com doce de coco. As guloseimas vendidas pelas demais doceiras eram: não-me-toque, suspiros, mães-bentas, papos de anjos, pastilhas feitas com essência de hortelã e de rosas, pedaços de bolo de tapioca, de macaxeira e outros sequilhos.
Para as crianças foram armadas barracas de pescarias de pequenas prendas e outros folguedos. Também foram vendidos balões de cores, tamanhos e feitios variados.
Às 20:00h começou o footing: os rapazes parados, geralmente em pequenos grupos e as moças, de braços dados pra lá e pra cá, olhando por baixo da sobrancelha, de esguelha, na esperança de serem notadas pelo eleito e a partir daí engatar um namoro. Não se chamava “paquera”e sim flerte. Nos poucos bancos de cimento disponíveis ficaram os casais de namorados: Zé Soares e Gilma, Edmir e Darly, Raimundinho e Maria Célia, Teixeira e Helena, José João e Reginalda, Lauro e Dijica, Nair Amate e Bentinho. Dividindo o mesmo banco, ficavam dois casais de costas um para o outro.
E o burburinho aumentara quando às 21:00h, seu Severino ajudado por Sapo-Sunga, soltou o esperado balão, confeccionado em segredo para maior surpresa, e maior suspense, causando grande alarido da garotada Em seguida acendeu uma girândola de foguetes de lágrimas para admiração de todos nós.
Essa fora a senha para começar o grande leilão. Protegido por um alambrado de madeira, Carrinho Pereira começou a leiloar as prendas, distribuidas numa mesa improvisada com tábuas sobre cavaletes: pães-de-ló, bolos de tapioca, trigo e macaxeira, galinhas e capões recheadas, patos vivos, cachos de banana, compoteiras de doces: ”Quem dá mais”? “Quem dá mais”? apregoava o leiloeiro até que alguém fizesse um lance maior; aí o grito era outro: “a fonte entrega a fulano”. Na hora do leilão do boizinho aproximaram-se os pecuaristas: Zé Grande, Zelico, Pantim, Gigi, João Ramalho, Raimundo Rodrigues, Pedro Almeida, Dico Araujo; a disputa fora acirrada com lances cada vez mais altos, para impressionar os presentes, ajudar a Matriz e AD MAIOREM DEI GLORIAM.
Às 22:00h o Arraial esfriara e as pessoas foram saindo para os bailes, extensão pagã da Festa de Santo Inácio. Algumas foram para a casa de Luiz de Dondona Soares, na Rua Benjamin Constant, outros para as festas de segunda, realizadas em bairros mais distantes. A elite social foi para casa aprontar-se para o baile no Cassino Pinheirense. O presidente do clube, Nezinho Soares, trouxe nesse ano um cantor maranhense que anos depois se tornaria coqueluche nacional: Roberto Muller,o “Pingo de Ouro”, hospedado em nossa casa, pois o meu padrasto Abílio, grande amigo de Nezinho não lhe negara o pedido.
Eram poucos os veículos na cidade, além de uma lambreta e um jipe dos padres, circulavam por nossas ruas empiçarradas e esburacadas os jipes de Américo Gonçalves, Dico Araujo e Zé Santos. João Moreira e Artuzinho comprariam seus veículos anos depois. Fomos mesmo a pé, pois usávamos ainda sapatos baixos. O sapateiro Elisabeto Costa, recém-chegado do Rio, onde aprendera com o seu conterrâneo Rubens Corrêa a fazer sapatos de salto Luis XV, não chegara para as encomendas.
Em casa trocamos mais uma vez de roupa, pusemos um pouco de ruge, batom e perfume, indo com os nossos familiares para o Clube, a estas horas já com as mesas de pista totalmente ocupadas. No palco a orquestra dos Soares tocava sambas, boleros, baladas dolentes, às vezes, a pedidos, um fox ou um samba-canção. No fim do baile, tocaram marchinhas para animar o ambiente. Os garçons prestimosos iam de mesa em mesa, servindo refrigerantes, cervejas e pastéis, como tira-gosto.
As mesas foram ocupadas pelos casais e seus familiares: os irmãos Zé Maria, Raimundo e Américo, dr. Estrela, Goulart, dr. Arruda numa grande e animada mesa. Henrique Schalcher, Ubaldo Pimenta, Deusdeti, com as suas esposas, formavam outra mesa. Zé Santos, Ulisses Durans, Rui Marques, Wilson Marinho, Odilon Soares, Edgar Cordeiro com as respectivas esposas e filhas. Orlico Soares, Dedeco Mendes, Cravinato Nogueira, Cosme Duarte, Algenir Aguiar, Marinheiro e o seu irmão Zé Pedro, João Campos, Pedro Almeida, Didi Soares, Edésio Castro, os irmão Paiva, Maneco, Afonso e Luis, também o Cel Paiva, Ribamar Ferreira, Gregório, Claudionor e Alberto Corrêa, seu Edésio Alves, Dico Aroucha, Chiquinho de Gino, Antônio Trindade, Ernildo e os irmãos Lourival, Chiquinho e dr. Zequinha Gomes, Tarquínio Sousa, Abílio Loureiro, Juarez Leite, Ozório Abreu estes só com as respectivas esposas e claro, Nezinho, presidente do clube a e sua consorte.
No salão já dançavam: Haydée e Hibinho, Artuzinho e Socorro Jinkings, Ísis e Byron, Júlio César e Anaclan, Nelcy Moraes e João de Deus, Edmilson e Maria Lúcia, José Soares e Gilma, Edmir Beckman e Darly, ZéMaria Santos e Niedja, Remi Trinta e Maria Alice, Maria Helena Castro e Eldonor, Lauro Mineiro e Dijica, Zete e Leopoldo, Lurdinha e Fradique, Erasmo e Marilene, Raimundinho e Maria Célia, Flora e Santinho, Ernaldo Peixoto e Cocota, Aymoré e Delfina, Edméa e Reginaldo, Zé Anastácio e Laurení, Sofia e Zé Pinheiro, Marbene e Orlandinho, Ana Fausta e Tote Leite, Gilberto e Maria Isaura, Zé Roberto e Aparecida, Zuza e Maria de Lurdes Pimenta, Elce e Levi Leite, Valdecí e Antenor, Celeste Guterres e Luiz Paiva, Gatinho e Niédice, Edilson Peixoto e Socorro Castro, Ribamar Martins e Cristina Rocha, Raimundo Estrela e Helinice e outros casais de namorados.
Sem par, aguardando o convite para a dança: Cindoquinha, Glorinha Aroucha e sua irmã Concita, Dilucinda Castro, Lucinda e Alcinda Ferreira, Bibi Moraes, Flory, Maria de Jesus Nogueira, Maria
Helena Soares, Deny, Teresinha e Dilma, Gracinha Marques, Maria Lúcia Cerveira, Lurdinha Soares, Maria Pereira, Ericine Moreira, Lenir Dias, Alcinda Soares e duas primas, Vitorinha, Lucenir, Selmita Melo, Dezinha Peixoto, Socorro Marques e eu. Os rapazes, fazendo-se de rogado, esperavam o momento certo para o almejado convite: Jurandy e Leitinho, Danilo Durans, Lauro Reis, William Pinheiro, José Reinaldo, José Isaias, José Roberto e seu irmão Inácio, Roberval Melo, Tinche, Florêncio, Capitão Leite, Edmar e Ary Abreu, Tuzinho e Zé Carlos Rodrigues, Afonso Guimarães, Gladston, Alexandre Botão, Catí, Alaôr Mota, Palmerinho, Aquiles, Rufino, os irmãos Juca e Rui Cordeiro e outros que o tempo me fez esquecer.
Às 23:00h, após o intervalo, a atração trazida nesse ano, Roberto Muller começou com o seu repertório de boleros e baladas: Beija-me muito, Castiga-me, Lembranças, Nunca mais brigarei contigo e Vai saudade, foram as mais aplaudidas. Os jovens sentaram e os senhores com suas esposas foram dançar, destacando-se como pés-de-valsa: Abílio e Inez, Cravinato e Olegária, Ubaldo e Gracinha, Ribamar e Mundoca, Artuzinho e Haydée.
O sinal de que o baile estava prestes a acabar fora dado pela orquestra que começou a tocar marchinhas de velhos carnavais. Às 2:00 h. em ponto a orquestra emudeceu, os homens acertaram as contas com os garçons, reuniram seus familiares, principalmente as filhas, pois nessa época não era permitido aos rapazes levarem suas namoradas em casa.
Após as despedidas entre os amigos que ficavam e os que iriam viajar para São Luis, com promessas de cartas, pois ainda não havia serviço de telefone, todos voltaram felizes e nostálgicos para as suas casas. As viagens seriam de barco, incômodas, demoradas, pois apenas os mais abonados viajavam de taxi-aéreo e mesmo assim por problemas de saúde.
Adeus, amigos! Viva Pinheiro! Salve Santo Inácio! Até o próximo ano!
OBS.: Como justificativa pelas indiscrições cometidas, mencionando casais de namorados, cujos romances foram desfeitos, invoco em meu favor, esta citação de Pablo Neruda: “Nosotros, los de entonces ya no somos los mismos”.
Era nosso desejo apresentar numa só tela panorâmica, um dos aspectos da cidade de Pinheiro em fins da década de 1950, em plena fase dos Anos Dourados, que refletisse o clima de efervescência cultural e expectativas que vivíamos na mocidade, às vésperas de concluir o Ginásio e deixar as plagas nativas. Gostaríamos de distribuir no cenário todas as pessoas conhecidas, com papel maior ou menor, importantes e não, mas todas inesquecíveis, movimentando-se no mesmo espaço cênico, ligadas aos mesmos interesses, ajudando a tecer a história social da nossa cidade.
Evocar é um ato posterior ao vivido e leva-nos a incorrer em erros e omissões. Espero não ter causado embaraços e constrangimentos, até mesmo recordações dolorosas. Apesar de ter excelente memória, seria impossível lembrar-me de todos, amigos ou simples conhecidos, 55 anos depois    
 desses acontecimentos. Muitas pessoas ainda estão vivas, e por certo conservam em sua memória as lembranças das festas das quais participaram e que foram por mim evocadas; outras devem ter ouvido dos seus pais e avós; outras, infelizmente, já dormem o sono da eternidade.
Concluindo, apelo novamente a Dostoievski: “limito-me a narrar os fatos tais como se produziram, tão exatamente quanto me foi possível, e, se parecerem inverossímeis, a culpa não é minha”.
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