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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Porque João Victal de Mattos

Em texto anterior,  postado no mês de maio  último, traçamos um breve perfil do farmacêutico João Victal de Mattos, um dos empresários mais influentes no período compreendido entre o último decênio do século XIX e as primeiras três décadas do século XX. Também, na política, segundo o escritor Milson Coutinho é considerado um dos Vultos Notáveis, tendo sido deputado atuante  nas 4ª e 5ª legislaturas.

João Victal  de Mattos teve influência decisiva sobre a ida de José Paulo Alvim, para Pinheiro. Patrono da cadeira nº 3 da Academia  Pinheirense de Letras, Artes e Ciências (APLAC), escolhido para tão elevada honraria pelo seu trabalho  em prol dos pinheirenses, zelando, por quase 40 anos,  pela saúde dos moradores da pequena vila e dos seus arredores e, após 1920 da cidade e seus povoados, principalmente nos longos períodos em que a população não dispunha de assistência médica.

Prático de Farmácia, José Alvim, na sua Botica, não só aviava  as receitas, solicitadas por médicos que esporadicamente visitavam a cidade (Dr. Clarindo Santiago, Dr. Neto Guterres, Dr. Fernando Viana e a partir do fim da década de 1930 o Dr. Antenor Abreu e o Dr. Costa Rodrigues), como manipulava fórmulas retiradas do Czernovitz e algumas por ele desenvolvidas, constituindo-se como um dos elementos responsáveis pela fixação das pessoas vindas das mais diversas regiões, portanto, do povoamento da vila, impondo-se, pela sua experiência, conquistando a confiança dos moradores, evitando que eles desertassem da terra em que levavam vida tão primitiva.

Na  APLAC a cadeira nº 03 é ocupada por sua filha Moema de Castro Alvim, farmacêutica, professora adjunta de Parasitologia, do Depto.  de Patologia da UFMA, atualmente aposentada. Entretanto  durante o tempo em que exerceu a sua profissão,diferente do pai, Moema dedicou-se ao magistério e à pesquisa, tendo sido a primeira  profissional  maranhense a dedicar-se ao estudo da  epidemiologia da esquistossomose e das  leishmanioses.

João Victal mais do que ninguém vislumbrou a inteligência, força de vontade e dedicação de José Alvim, conferindo-lhe aos 18 anos o certificado de Prático em Farmácia,  que o credenciava para estabelecer-se como boticário em qualquer localidade do Maranhão. E foi, também, João Victal quem o incentivou a estabelecer-se na pequena, porém já promissora Vila de Pinheiro, a esse tempo em franco desenvolvimento, superando, alguns anos depois as vilas circunvizinhas.

Mestre na arte da manipulação, João Victal não só ensinou ao seu jovem discípulo os segredos do ofício, mas, apostando na determinação e na integridade do  caráter de José Alvim, forneceu-lhe os medicamentos imprescindíveis para a instalação de uma pequena e sortida Botica na emergente vila.

                Desde fins do século XIX, os irmãos Mattos, João Victal, Tancredo, Heráclito e Abeillard, naturais de Viana, estabeleceram-se em São Luís e fundaram a firma João Victal de Mattos & Irmãos, dando início  a um sucedido empreendimento no ramo farmacêutico, com sede à rua do Quebra Costas ou Beco da Pacotilha, atualmente João Victal de Mattos, no prédio onde funcionou a firma Abreu & Cia, até o 3º quartel  do século XIX.

No seu período áureo foi uma das maiores drogarias, servida por um excelente laboratório, cujos produtos se tornaram conhecidos e procurados em todo o norte do país. Antecipando em décadas as técnicas de marketing, João Victal divulgava os seus produtos através do Almanaque Maranhense, distribuído anualmente e elaborado com seleta colaboração literária, sendo impresso em Paris, divulgando literatos maranhenses como Luso Torres e o maestro Inácio Cunha.

Riquíssimos, viajados, sofisticados, os irmãos Mattos  destacavam-se no meio social e foram os idealizadores e fundadores do Clube Euterpe, o mais seleto e conceituado clube de São Luís, que tinha entre  seus associados  cavalheiros das mais altas esferas  sociais. O clube que teve o nome em homenagem `a musa da diversão e da música funcionava no palacete que pertencera ao Comendador Leite  e  era gerenciado  pelo Sr. João Lurine Guimarães, proprietário do sortido botequim.

Além dos bailes , o clube oferecia outros  tipos de atividades como  saraus literários, conferências, proferidas por intelectuais da terra como: Antonio Lopes, Domingos Barbosa, Fran Paxeco, Corrêa de Araujo, Raul Pereira, Aníbal Mascarenhas, Vieira da Silva e outros. Nos salões  havia mesas onde se realizavam partidas de gamão, xadrez, dama, bilhares e até jogos de azar (exceto roleta). Em 1911 por desentendimento entre seus sócios o clube  encerrou suas atividades. No prédio, mais  tarde,  funcionou o Superior Tribunal de Justiça.

João Victal era muito popular entre os poetas, como Maranhão Sobrinho que sempre ia à  sua farmácia tomar um cálice de Málaga, geralmente, em troca de sonetos transcritos  em  seu álbum de poesias.

As fórmulas farmacêuticas desenvolvidas por João Victal renderam-lhe  premiações importantes como a Medalha de Prata na Exposição da Festa Popular do Trabalho, realizada em São Luís em 1912, como parte das solenidades comemorativas  ao tricentenário de fundação de São Luís e também na Grande Exposição Universal de Saint Louis, nos E.E.U.U.  Na última Exposição Nacional realizada no Rio de Janeiro lhe foi concedida uma Medalha de Ouro.

Em 1921,  Bernardo Caldas & Cruz e A. R. da Costa Santos e o Laboratório João Victal de Mattos foram considerados os maiores laboratórios maranhenses, com o  maior número de produtos exportados, perfazendo 67.000  unidades  de remédios fabricados.

Além de preparados medicinais, o  Laboratório também fabricava produtos de toucador como Beleza do rosto, Talco hidratado e perfumado, Óleo de mutamba glicerinado, Odontina Mattos  e  outros pós dentrifícios, dentre outros cosméticos.

Na virada do século XX, João Vital aceitou o convite do grande líder Benedito Leite, presidente do Partido Republicano para ingressar na política, candidatando-se a Deputado Estadual, elegendo-se, sucessivamente  na 4ª legislatura (1901-03) e na 5ª (1904-06), oportunidades em que apresentou e defendeu dois projetos de grande repercussão:  o que  criava    a    aposentadoria  por  invalidez  de funcionário público, regulando, assim, essa modalidade e o que criaria um serviço de assistência aos lázaros.Em 1916 foi eleito sub-intendente de São Luis, na administração de Clodomir Cardoso.

Após  a morte dos irmãos Mattos, assumiu a direção técnico-administrativa do  Laboratório e Drogaria João Victal de Mattos o seu sobrinho Dr. Tancredo Segundo Mattos, farmacêutico, casado com a sra. Esther Castro Mattos, irmã da insignie mestra Prof. Rosa Castro.

Com a exoneração do interventor Paulo Ramos pelo presidente Getúlio Vargas, substituído pelo Dr, Clodomir  Serrão Cardoso, caiu, consequentemente  o prefeito de  São Luís, o médico Pedro Neiva de Santana, sendo empossado em seu lugar o Dr. Tancredo Mattos que administrou a capital de maio a outubro de 1945.

O Laboratório ainda  funcionou durante o período de 1940 a 1970, sendo que na última década de maneira precária,  enfrentando, com dificuldade  a concorrência local  e sem quaisquer condições de competir com os grandes  Laboratórios  instalados  no Rio de Janeiro e em São Paulo e, principalmente com a poderosa  indústria estrangeira, com as suas linhas de produção automatizadas e os princípios ativos sintetizados  em laboratórios de química.

Com  o falecimento do Dr. Tancredo, assumiu a responsabilidade técnica a sua  filha, a Dra. Zayde Mattos, a última descendente dessa linhagem, constituídas de brilhantes farmacêuticos e bem-sucedidos empresários.

Formada, também,  em Letras, a Dra. Zayde dedicou-se exclusivamente ao magistério, lecionando Latim e Francês nos Colégios Liceu Maranhense, Santa Teresa e Rosa Castro. Na antiga Faculdade de Filosofia e Letras, encampada, mais tarde pela  Universidade Federal do Maranhão, a Prof. Zayde ministrava aulas de Filologia  das Linguas Neolatinas, fluente em francês, italiano, espanhol e romeno.

Grande mestra, porém sem a necessária aptidão para gerir uma empresa, sem recursos financeiros,   sem  quadro técnico especializado,  nocauteada  pelas multinacionais, com seus escritórios de representação,  com um invejável trabalho de marketing junto à classe médica, distribuindo amostras grátis em grande quantidade, não teve outra alternativa senão cerrar as portas de um empreendimento  centenário, assim como o fizeram outros laboratórios que com grandes dificuldades ainda se mantinham de pé como o Laboratório Jesus, o  Bernardo Caldas, o Garrido, José Esteves e o Pedrosa.

O encerramento da produção mesmo em condições artesanais,  deixou uma lacuna  na  farmácia  caseira    de uma clientela fiel  a  essas fórmulas manipuladas e até hoje lembradas pelos mais idosos:

- Tintura Preciosa João Victal de Mattos \ Elixir de Carnauba | Vinho João Victal de Mattos| Pílulas antifebris de macela e genciana| Xarope de lactofosfato de cálcio iodurado| Elixir de hemoglobina| Vinho de quina|Linimento sedativo antinevrálgico|Xarope peitoral de mutamba e mais umas três dezenas de outros preparados medicinais.

Como farmacêutica e filha de José Paulo Alvim, manifesto neste texto, a homenagem da nossa família a esse  brilhante profissional, pioneiro na instalação da indústria farmacêutica  no  Maranhão e que ficou relegado, por décadas, nos escaninhos  mais secretos da memória maranhense.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Dez estudos históricos – Apontamentos para a história da Farmácia no Maranhão. – Mário Martins Meireles
História do Comércio do Maranhão (1612 a 1895) – 2º volume  - Jerônimo de Viveiros
Prosa. Poesia. Iconografia –Ruben Almeida
O Poder Legislativo do Maranhão – 1830-1930 – Milson Coutinho
                                        
                
                                              

                                               São Luís, 10 de Junho de 2011

                                               Moema de Castro Alvim

 

Um comentário:

  1. Parabéns, Moema. Texto muito bem escrito, em uma linguagem simples, mas não simplória e rico de informações sobre João Victal de Mattos e o comércio e indústria farmacêutica daqueles idos.

    Seminarista João Dias

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