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PAPIRUS DO EGITO

sexta-feira, 7 de março de 2014

A FAVA D’ANTA DO NOSSO CERRADO

                                           INTRODUÇÃO       

Pela concentração  de rica e diversificada cobertura florística, o Brasil ocupa o primeiro lugar no planeta,  com mais de doze mil espécies identificadas, exibindo grande variedade de  biomas, às vezes numa mesma Unidade da Federação. O Bioma Cerrado é o segundo maior do País com uma área  de  196 milhões de hectares e abrange os Estados do Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás, Distrito Federal, norte de Minas, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
O Estado do Maranhão ocupa uma área de 328.663 km2, sendo o 2@ no Nordeste e o 7@ no País e está situado numa posição privilegiada,  entre as Macrorregiões: Norte, Centro Oeste e Nordeste, apresentando as características climatológicas e principalmente fitogeográficas dessas três grandes regiões.  Em consequência, a sua vegetação reflete, em grande parte, as condições de transição  entre o clima super-úmido da Floresta Amazônica e o semi-árido da Caatinga.
Os Biomas são:  Pré-Amazônia, Baixada, Litoral Norte e Nordeste, Cocais, Chapadões,  Cerrado e Planalto.
Por sua localização entre a Amazônia, o Centro-Oeste e a Caatinga, no Maranhão,  o bioma Cerrado que ocupa 33% do território, não é caracterizado por  um determinado  tipo de cobertura florística, e sim um complexo vegetacional, constituído, na sua  estrutura, por um extrato arbóreo, consistindo de espécimes de troncos e galhos curtos, tortuosos e revestidos por casca grossa. Essas formações   se   distribuem  dentro de um gradiente, cujos limites vão do campo limpo  ao cerradão,  e abrangem  33 municípios dos quais  só 23 apresentam vegetação típica. Estende-se a sudoeste desde a bacia do Itapecuru, abrangendo os municípios de São Francisco do Maranhão, Barão do Grajau, São João dos Patos, Pastos Bons, Nova Iorque, São Raimundo das Mangabeiras, Montes Altos, Sítio Novo, Mirador, Riachão, Carolina, Imperatriz, Tasso Fragoso, Alto Parnaíba e pequenas áreas em Presidente Dutra e Bacabal. Ao sul da bacia do Mearim, o Cerrado chega a ocupar uma área de 7.500km2, principalmente em Grajau e Porto Franco. Em alguns municípios da Baixada,  do Litoral  e dos Chapadões encontra-se superposição  de biomas, formando ecossistemas diversificados, de acordo com os tipos de solos e índices pluviométricos, como Santa Helena, Pinheiro, Itapecuru, Barreirinhas, Humberto de Campos, São  Benedito do Rio Preto, Chapadinha, Vargem Grande, Urbano Santos, Pirapemas, Coroatá.
Sem uma consciência ambiental,  por parte das populações que habitam essas regiões , nem políticas públicas voltadas para a exploração sustentável  e com manejo adequado, e sem  uma legislação mais rigorosa para frear o desmatamento, assistimos impotentes a redução progressiva da vegetação nativa para a expansão agropecuária. Quase 50%  do território  ocupado pelos municípios de Balsas, Riachão, Tuntum, Barra do Corda, Grajaú, Aldeias Altas, Caxias, Codó,  Timbiras, Parnarama, São João Sóter, Urbano Santos, Vargem Grande, São Bernardo, Santa Quitéria, Barreirinhas, Chapadinha,  Coroatá, São Benedito do Rio Preto, correspondendo a uma área de  25 mil campos de futebol, foram devastados para a implantação de projetos agropastoris.
As espécies mais importantes e comuns são: pequi, araticum, cajuí, murici, buriti,  ingá, mangaba, sucupira, andiroba,  jatobá, barbatimão, canela de ema, mutamba, pau santo, pau terra, pau de colher, pau de pombo, fava d’anta, e outros vegetais, quase todos  com frutos bioativos  e nutritivos que alimentam os povos que ali vivem: índios, quilombolas, gente sem terra. Entretanto, o corte indiscriminado dessas árvores, é responsável pela destruição da cobertura florística original, dando lugar a diferentes  paisagens  antrópicas.
Apesar da falta de uma política mais incisiva, visando o reflorestamento para  recuperação das áreas degradadas, o Cerrado brasileiro  é reconhecido como a savana mais rica do mundo, pela biodiversidade  dos vários ecossistemas que abriga.

 FAVA d’ANTA  - CARACTERÍSTICAS  BOTÂNICAS

O Portal São Francisco afirma que há várias espécies de plantas com esse nome, dispersas no Cerrado. Entretanto, a verdadeira é uma leguminosa da família das Caesalpináceas, com 11 espécies, sendo a mais comum a Dimorphandra mollis -  originária do Brasil, com arbustos  de porte mediano,  com tronco tortuoso, revestido por casca grossa, escura e descamante que atinge entre 7 e 14m. As folhas grandes e bipinadas com folíolos alternos ou subpostos; flores pequenas, em espiga,  creme-amarelado. O fruto é uma baga de aroma adocicado, tipo vagem, achatada de cor entre marrom escuro a quase preto, opaca, com superfície irregular, rugosa no ápice, base arredondada, bordo irregular e lenhoso. Mede de 10 a 15cm, com 10 a 21 sementes alongadas e avermelhadas. Adapta-se bem aos terrenos secos, embora prosperem muito bem em terrenos adubados com esterco e fosfato. Para atingir 14m a árvore demora entre 6 e 7 anos.
A espécie predominante no Maranhão, parte do Piauí, Ceará e Bahia é  D.gardneriana.
Sinonímia: falso barbatimão, barbatimão de folha pequena, faveira, farinheira, canafístula e outras denominações, dependendo da região.

 VALOR  COMERCIAL - PROPRIEDADES  FARMACOLÓGICAS

Das suas vagens extraem-se flavonoides do grupo dos polifenóis ou pigmentos vegetais que protegem as plantas contra os raios ultravioletas, assim como de fungos, insetos, vírus e bactérias. Controlam a ação de hormônios dos vegetais e agentes alelopáticos, inibindo as enzimas. O principal flavonóide  é a quercetina, constituindo matéria-prima por excelência no desenvolvimento de produtos  fitoterápicos como a rutina, sintetizada na planta,  e que retarda o processo de envelhecimento, melhora a circulação, devido às suas propriedades vasodilatadoras, atuando sobre a resistência e permeabilidade capilar, semelhante à Vitamina P. Também possui ação anti-inflamatória, usada como agente terapêutico  no tratamento de doenças que envolvem os radicais livres. Outro componente químico  extraído de suas vagens é a ramnose, usada na indústria de cosméticos.
A rutina,  flavonoide solúvel  em metanol foi descoberta em 1936, pelo bioquímico húngaro  Albert Szent-Gyorgy que a chamou de vitamina P.
Pesquisadores da Universidade da Bahia, em testes com a rutina  obtiveram  resultados surpreendentes em células cancerígenas, impedindo a formação de vasos sanguíneos que alimentam os tumores, freando o seu  crescimento e  induzindo à morte as células doentes. Quando associada à vit. C, aumenta a sua absorção, formando um complexo com os radicais livres, que protege o organismo de sua ação lesiva.
Esses favonóides biossintetizados a partir da via dos fenilpropanóides, fazem parte da importante classe dos polifenóis e podem pesar 10,25%  da fava seca.
 Várias  instituições  científicas estão  desenvolvendo pesquisas para modificar os princípios ativos dos seus subprodutos, convertendo-os em remédio para o Mal de Alzheimer,  agindo para melhorar o funcionamento neural e controle das convulsões.
Espécies caducifólias, pioneiras das plantas adaptadas a solos pobres, ocorrem agrupadas  ou dispersas, desde formas arbustivas até espécimes cujos caules cilíndricos  podem alcançar 25 a 30 m. de altura
A coleta das vagens é feita, geralmente, com o  auxílio de instrumentos rudimentares como ganchos, forquilhas ou de maneira predatória pela  quebra dos galhos. Depois são processadas, por trituração para  extração do princípio ativo, de grande valor na indústria farmacêutica. No mercado  encontra-se sob a forma de vitaminas e complemento alimentar. O subproduto  é usado  na alimentação de animais domésticos, também de tucanos, araras, antas e bovinos. Das cascas extrai-se tanino usado em curtumes. Seu manejo inadequado contribui, no entanto,  para  perda considerável de seus princípios ativos.
O Brasil comercializa 95% da rutina extraída, para o mercado internacional, constituído  de 36 países, sendo o Laboratório Merck o maior comprador. De cada quilo de vagem, extraem-se 100 a 150 g de rutina ou cada 100g do pericarpo rende 8g de rutina. Somente uma planta chinesa possui os elementos químicos da fava d’anta, tão disputados pela indústria farmacêutica.
Provoca nos animais  reações neurológicas estranhas, acompanhadas de dificuldade motora e fraqueza,  tremores musculares, salivação  espumosa, pelos arrepiados, timpanismo, distúrbios intestinais graves com fezes muco-sanguinolentas, coágulos sanguíneos, prolapso retal, problemas renais e aumento dos batimentos cardíacos. Pode provocar aborto em vacas. A dose letal éde25g/kg do peso vivo.
Das sementes obtem-se galactomananos   para determinar o rendimento de polissacarídeos, na indústria alimentar.  Na indústria de cosméticos extrai-se a soforina adicionada  a  creme para regular o brilho da pele.
A madeira é usada para tabuados, caixas, compensados, forros, brinquedos, painéis, postes, moirões de cercas, lenha e carvão. As mudas estão sendo usadas para recuperação de áreas degradadas e em arborização  de projetos paisagísticos.

                             USO  EM  MEDICINA  POPULAR

Antioxidante, cardiovascular, atua na oxidação de lipídeos e na radioproteção; também, anti-inflamatória, anti-carcinogênica. Usada para diminuir as dores provocadas por  varicocele,  hemorroidas e varizes e em  pacientes hipertensos para prevenir tromboses  ou em  vítimas de irradiação.

                                 CONSIDERAÇÕES  FINAIS

Apesar da falta de políticas públicas para orientar o extrativismo dos frutos do Cerrado, algumas práticas e inovações em sustentabilidade, estão sendo adotadas para preservar as árvores,  contribuindo com  conhecimentos científicos e agregando valores a esses produtos vegetais, levando em consideração o crescimento economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto para essas comunidades que já se organizam em cooperativas familiares. Fomentando e dando suporte técnico algumas tentativas bem sucedidas vêm sendo adotadas em certas áreas, como em Januária e Montes Claros, norte de Minas, para coleta das favas, sem destruir os faveiros, substituindo a precariedade da  extração, aperfeiçoando as técnicas corretas de manejo. Também incentivando o plantio de mudas, visando o reflorestamento das áreas degradadas e desestimulando o uso de troncos e galhos na produção de carvão. No Cariri, sul do Ceará,  a produção de favas chega a ser  de 300 toneladas por ano. O Laboratório  Merck, em uma só oportunidade, comprou 350t. para repassar para a multinacional Nutrilite.
Aqui no Maranhão as tentativas são ainda tímidas e bem menos sucedidas. Entretanto o Laboratório Merck, adquiriu  em 1989, a Unidade Agroindustrial da Fazenda Chapada, em Barra do Corda, com uma área  de 3mil hectares, com o cultivo de jaborandi para extração da pilocarpina, com produção anual de 450 toneladas  e, ultimamente da fava d’anta, para obtenção da rutina.

                                       AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Marco Antônio  Teixeira Neto pela sugestão do tema e à Prof. Ana Maria Santana Neiva Costa pelas fotos de faveiros,  enviadas de São João dos Patos, ambos sertanejos.

2 comentários:

  1. Sou da cidade de Iporá no interior de Goias, gostaria de saber se tem alguma industria que compra essa fava pois onde meu pai mora tem muitas arvores, e eu tive pesquisando sobre ele e vi que pode ter comercio, meu email é lucyannamorais@hotmail.com, gostei muito da sua postagem aprendi muito o que não sabia, desde já obrigado.

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  2. Sou da cidade de Iporá no interior de Goias, gostaria de saber se tem alguma industria que compra essa fava pois onde meu pai mora tem muitas arvores, e eu tive pesquisando sobre ele e vi que pode ter comercio, meu email é lucyannamorais@hotmail.com, gostei muito da sua postagem aprendi muito o que não sabia, desde já obrigado.

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