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PAPIRUS DO EGITO

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Neem e a Medicina Ayurveda

A ciência Ayurveda é uma filosofia voltada para seguir com naturalidade o funcionamento natural do ser humano como um todo. Baseia-se  no sistema filosófico dos cinco elementos que formam toda a constituição do universo: ar, éter, fogo, água e terra, além do discernimento  e da mente. Quando há desequilíbrio  desses elementos, surgem as doenças.
Esse Sistema desenvolvido por antigos sábios da Índia significa “conhecimento da vida” e se baseia no fato de que todos os seres humanos são regidos por esses cinco elementos, através de dosha: Vatar que rege ar e éter; Pita, regido pelo fogo e água e Kapha regido por terra e água.
O Ayurveda traz todas as orientações adequadas para isso e tem por princípio básico reativar a inteligência do nosso corpo para que ele trabalhe junto com as substâncias orgânicas. Essas práticas não separam  a ingestão de alimentos, estilo de vida, ambiente, estado de vida mental  e das ações medicinais  que são prescritas. Para a Ayurveda não existe o bom e o ruim, tudo pode ser remédio quanto veneno. A questão está no entendimento  de como, quanto, quando, onde e porque usar determinada substância.
As doenças resultam do desequilíbrio desses elementos, pela liberação das toxinas acumuladas, impedindo o fluxo  natural e espontâneo da energia no organismo.
A Medicina Ayurveda que em sânscrito significa a ciência da vida, do entendimento da natureza das coisas, continua sendo a medicina oficial da Índia, base da medicina árabe, chinesa, grega e romana; busca a prevenção dessas doenças, empregando várias ferramentas terapêuticas para equilibrar os doshas, através de massagens com óleos medicinais, drenagens linfáticas, relaxamento mental; age no sistema linfático, desintoxicando o organismo; atua no sistema circulatório, aumentando a produção de glóbulos brancos, facilitando a nutrição e oxigenação das células; e energética, equilibrando o chacra, atuando nos sete elementos do corpo, desfazendo bloqueios emocionais. Também  uma dieta equilibrada, rotina diária de hábitos saudáveis, oleação, sudação, fitoterapia, uso de metais e pedras preciosas, yoga e meditação.
As massagens liberam as toxinas que se acumulam no organismo que as expele através das fezes e da urina. O óleo no  caso é o medicamento, extraído de plantas específicas, escolhido para cada constituição psicofisiológica,  e restaura o bem-estar físico, mental, energético e emocional.
Os óleos variam, pode ser de rícino, oliva, coco, sésamo, mostarda e muitos outros escolhidos de acordo com o tipo de desequilíbrio predominante no paciente, a estação do ano, e em função das necessidades particulares e individuais.
Também são utilizados chás de folhas, cascas de árvores, raízes, flores e frutos na medicina ayurvédica, principalmente na Charaksamhita e no sistema medicinal Unani, visando remediar as causas e não os sintomas.
Para a Ayurveda a doença é muito mais que uma percepção de sintomas desagradáveis ou perigosos à manutenção da vida. Como ciência integral considera que a doença se inicia muito antes de chegar à fase em que é percebida. Assim, pequenos desequilíbrios tendem a aumentar com o passar do tempo se não forem corrigidos, originando as doenças.
 Quanto à fitoterapia ou Medicina Alternativa, as plantas medicinais são seguras desde que usadas de forma correta, funcionando muito bem para tratar desequilíbrios básicos do metabolismo e do corpo, mas são menos eficazes em doenças agudas, decorrentes de hábitos inadequados e ignorância. É ingenuidade pensar que as ervas medicinais são 100% eficientes se não há mudanças no estilo de vida e dieta que dê suporte ao tratamento
A fitoterapia é exatamente onde o Brasil e a Índia se encontram, pois 80% das nossas plantas são também nativas no subcontinente indiano e podem ser usadas de acordo com a milenar tradição ayurvédica. As mais conhecidas entre nós são: gengibre, cravo, canela, noz moscada, coentro, cominho, hortelã, usadas tanto na culinária como condimento, como na terapêutica. No livro As Plantas Curam, o autor, Alfons Balbach faz referência a mais de quinhentas.
Outras plantas asiáticas usadas no Brasil são: ginseng, castanha da Índia, centelha asiática, cáscara sagrada, salsaparrilha, valeriana, melissa, echinacera, jaborandi, arnica, alcachofra, lúpulo, cavalinha, espinheira santa, cardo mariano, fel da terra, erva de São João, alfazema, malva, chapéu de couro e quase duzentas outras que fazem parte do nosso arsenal terapêutico popular, como a Pfaffia paniculata, substituta do ginseng, e nestas últimas décadas o  noni e o nim.

Atualmente a medicina ocidental, a homeopatia e a medicina psicossomática recuperaram  a visão global do ser humano já adotada há milênios pela Medicina tradicional chinesa  e pela Ayurvédica de que a doença começa na psique porque ela é a energia formativa que cria os órgão e os mantém em funcionamento. Longos períodos de estresse, deixam marcas profundas no corpo.
Em todos esses sistemas de saúde o conceito de espírito e psique é parte integrante do diagnóstico (individual e global) e a saúde depende do equilíbrio, enquanto o desequilíbrio leva à doença.
A dimensão psicológica e espiritual é indissolúvel do corpo. Em todos os sistemas das grandes Civilizações, algumas com milênios de observação e experiência, adotaram o princípio de que o espírito, a mente, o corpo, as vísceras e as emoções fazem parte de um todo. 

                               NEEM  ou NIM

O Neem é um dos mais importantes componentes da Medicina Ayurvédica. Seu nome científico é Azadirachta indica, que significa árvore generosa, pertence à família das Meliáceas sendo a única espécie do gênero, A essa família pertencem o cedro e o mogno. Alcança grande porte atingindo, alguns espécimes, 30m de altura com tronco medindo 2,5m de diâmetro.
Autóctone em todo o subcontinente indiano a sua origem é bastante discutida. Alguns botânicos dizem ser originária de Assam e Burma, sendo comum em toda área seca central e nas colinas Siwalifa, estendendo-se de Kerala, na Índia, ao Himalaia. Outros dizem ser nativa  nas áreas florestais secas em todo sul e sudeste da Ásia, na índia e Birmânia, no Paquistão, Sri Lanka, Tailândia, Malásia e Indonésia, Papua e Nova Guiné. Na Nigéria é conhecida como Babo Yaro. Ao longo dos séculos se distribuiu no sul do Pacífico nas ilhas Fidi, Maurício, Caribe, América Central e do Sul. Também é conhecida na Austrália e nos Estados Unidos, com pequenas plantações na Flórida.
Na América Latina foi introduzida no século XX, em projetos na Nicarágua, Honduras, Cuba, República Dominicana e na Venezuela. No Brasil entrou em 1993, através da Embrapa, para experimentos como defensivo agrícola, logo se espalhando por todos os Estados, principalmente em projeto de arborização.
Venerada como árvore sagrada na Índia, onde é considerada a Farmácia da Aldeia, tem tronco curto, reto, casca fissurada na cor cinza escuro; folhagem sempre verde, seus galhos atingem  até 20 m.  proporcionando uma boa sombra.  Contam que Gandhi costumava meditar à sombra dessas árvores e consumia diariamente um chutney de suas folhas, cujo extrato tem a capacidade de bloquear o funcionamento da alfa-enzima, envolvida no funcionamento do pâncreas durante a digestão e que transforma o amido em glicose. Normalmente com nove anos mede 20m de altura. Sua vida útil chega a 200 anos. As folhas são pequenas, com cerca de 8cm, lanceoladas, acuminadas, bordos serreados e com base assimétrica; a floração ocorre entre 3 e 4 anos e as flores pequenas com cinco pétalas, são bissexuais, brancas, delicadas, aromáticas e melíferas.  Os frutos, tipo drupa, são do tamanho de uma azeitona, com 2cm e quando maduros tomam uma coloração amarelo-esverdeado, indo à púrpura, com polpa doce e um só caroço. As raízes são bem aprofundadas, de grande vigor, rebrotando com facilidade.
É uma planta polivalente, usada há milênios na Índia. Dela se aproveita tudo: casca, galhos, folhas, flores, sementes e a madeira do tronco, resistente a pragas.
O Nim está sendo testado como anti-virótica, no tratamento da herpes e da hepatite B.
Há mais de 3 mil anos vem sendo utilizada na higiene pessoal, profilática e terapêutica humana, animal e vegetal. Cientistas modernos estão encontrando cada vez mais usos para esta notável planta: antiviral, antisséptica, antipirética, anti-inflamatória, cicatrizante, antifúngica, antibiótica e contra úlceras. Também no tratamento de salmoneloses e estafilococoses. A sua atividade imunomodeladora do linfócito Th1, considerado estimulante potente no sistema imuno-hipoglicemiante tanto para a diabetes 1 e 2. Purificador do sangue, previne contra eczemas, candidíase, pé-de-atleta, acne. Indicada para os problemas periodontais.
Na Índia, além de todas as indicações mencionadas, são utilizados rebentos de Nim, para dar força vital e purificar o sangue.
Um longo processo iniciado pela Índia e o Instituto Europeu de Patentes, anulando só recentemente patentes já registradas por uma multinacional que impedia os indianos de dispor livremente dos recursos do Nim. Em consequência, os financiamentos  para pesquisas por instituições ocidentais foram suspensas. Foi um  duro golpe nas pretensões da biopirataria farmacêutica europeia que queria manter o registro de setenta patentes de produtos do   Nim,  no campo da saúde.

                       USOS   NA  INDÚSTRIA

Nos Estados Unidos comercializam-se vários produtos derivados do Nim, como tortas, repelentes, sendo, no entanto, mais ulilizado como cosméticos: sabonetes, creme dental, enxaguatório bucal, xampu, condicionador, desodorante, gel para o corpo Também folhas dessecadas, cápsulas, pomadas, spray, tônico modificado, pó e até bonecos. Esses produtos são totalmente naturais.
Vários países da Europa, principalmente a Alemanha  pesquisam as propriedades do Nim há mais de vinte anos. No Continente Americano, a República Dominicana, Cuba, El Salvador, Guatemala, Costa Rica e Nicarágua têm envidado esforços para detectar princípios ativos para fins industriais, químicos e medicinais.
Sua principal utilidade  é como pesticida e no controle biológico de diversas pragas que atacam as plantas e animais do campo. O Nim possui nove princípios ativos com função inseticida e biodegradável, sendo o mais potente a Azardirachtina, que é um tetranortriterpenoide ou limenoide, tornando as plantas mais resistentes. Também usada como adubo resultante da prensagem de sementes, formando uma pasta que deve ser misturada com fertilizantes sintéticos, fontes solúveis de nitrogênio, pois sendo antimicrobial reduz a população de bactérias  nitrificadoras do solo, que captam o oxigênio do ar, disponibilizando-o à planta.
Combate mais de 500 espécies de parasitos, como ácaros, insetos, mosca do berne, fungos, bactérias, nematoides; repelentes de insetos, carrapatos, piolhos, pulgas de cães.
A azadirachtina tem efeito residual de 3 a 7 dias, podendo ser borrifada uma vez por semana.
Estão sendo realizadas pesquisas em várias instituições científicas para testar o seu potencial no controle biológico do dengue, malária e leishmaniose, atuando sobre o sistema hormonal dos insetos, impedido o seu desenvolvimento.
Combate a fusariose que causa a podridão das raízes das pimenteiras, cochonilhas das bromélias e também dos cinamonos. Para pulverização usa-se o óleo das sementes misturado com andiroba e citronela, obtendo-se excelente  Repel.
Mais de 240  plantas são conhecidas por suas propriedades pesticidas, porém somente o Nim oferece controle efetivo sobre os insetos sem afetar o meio ambiente, considerada o melhor agrotóxico do mundo.
                    
                    USOS  NA  MEDICINA  POPULAR
   
Chamada amargosa pelo seu sabor, possui múltiplos usos: folhas, cascas da árvore, frutos, sementes têm diversas aplicações. Desde tempos imemoriais os indianos já usavam suas folhas como antisséptico e para tratar problemas bucais, como gengivite, mau hálito, dentes amarelados, sangramento, reduzindo as placas bacterianas e candidíase. As folhas são usadas in natura, ou sob a forma de chá e extrato, no controle de doenças cardíacas, melhorando a circulação sanguínea, reduz a coagulação do sangue, regula a pressão arterial. Fortalece o sistema imunológico, envolvendo o sistema metabólico, inibindo a ação dos radicais livres. Usada como coadjuvante no tratamento da obesidade e da diabetes, graças aos teores de serotonina que inibe a liberação da insulina. Combate os fungos que atacam as unhas, tornando-as fortes e resistentes.
A Medicina Veterinária usa como carrapaticida de animais domésticos, como cachorros, gatos e cavalos. Na lavoura é utilizada no controle da mosca de chifre e como repelente de insetos, na prevenção de pragas que atacam hortaliças, culturas de arroz e feijão, assim como os percevejos, cascudinhos e lagartas.
O Instituto Osvaldo Cruz, em Manguinhos, há três anos pesquisa os efeitos do óleo do Nim  no   combate aos flebótomos na sua fase larvária, controlando assim, as leishmanioses.
Na Universidade de Maringá, no Paraná, o Nim vem sendo testado como espermicida. 
                             
                PROPRIEDADES  NUTRITIVAS

Cento e vinte princípios ativos já foram identificados, considerando, por suas funções e propriedades nutracêuticas, um alimento que previne doenças. Desse total noventa são bioativas, atuando no metabolismo do organismo, considerados nutrientes funcionais com ações terapêuticas, sendo cinco purificadoras e desintoxicantes sanguíneos. Os frutos  contém muitas proteínas, usadas como aditivo alimentar, carboidratos para fermentação industrial. A polpa é promissora para produção do gás metano.

                      OUTROS  USOS

A madeira do tronco é dura, pesada e usada na fabricação de carretas, ferramentas, postes para cercas, móveis, casas. Usada em reflorestamento e como planta ornamental de praças e parques. Na Índia extrai-se do tronco uma resina usada como cola e das cascas, fazem-se cordas bem resistentes.
  
                                 RESUMINDO

1 – As cascas são usadas para tratar reumatismos, dores lombares, febre.
2 – O sumo das folhas é empregada para expelir lombrigas, curar icterícia e doenças da pele.
3 – O óleo das sementes, de forte odor, é usado no tétano, em eczemas, urticárias, escrófulas, erisipelas e estágios iniciais da hanseníase.
4 – Os galhos pequenos são usados como escovas descartáveis.

                      CONTROVÉRSIAS

Pesquisadores contrários à difusão do Nim, atribuem a essa planta a transformação de ecossistemas abertos em fechados, com perda da biodiversidade, pelo sombreamento e exposição do solo, com consequente erosão, provocando o assoreamento dos cursos d’água, com impacto sobre a fauna ictiológica. Reduz, também, a área agropastoril para herbívoros. Alteração  do regime hídrico em ecossistemas abertos, pela supressão  de outras espécies  arbóreas é  causada pela ação  de substâncias alelopáticas e estabelecimento gradativo de dominância de uma só espécie.

                         AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Antônio Pinheiro Gaspar, farmacêutico-bioquímico pela sugestão do tema que vem suscitando interesses na Indústria Farmacêutica.
À amiga Flavya Aranha por informações precisas e atuais
À amiga Ana Sofia Moraes Nascimento que me enviou de Miami,  catálogos com produtos derivados do Nim,  à venda nos EUA.
                          

4 comentários:

  1. Excelente texto 2 assuntos em 1 pode-se dizer, com opcoes mil de nos situarmos dentro dele.
    Sobre o Nin como e' extenso as propriedades dele, e o qeu ja fazem em produtos vindos do mesmo, MAracilha de texto e muitissimo esclarecedor tb.
    valeu !!!
    Sofia

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  2. Explicação perfeita, dentro de um texto como sempre, muito agradável. O Nin é poderoso. Obrigada, amiga, por mais essa pesquisa que fizeste por nós.
    Lena

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  3. nao consigo uma semente para planta-la!
    alguem teria para enviar-me?

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  4. meu neem só cresce na vertical, sem galhos! que fazer para nascerem galhos??????????

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