MOEMA

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PAPIRUS DO EGITO

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O BABAÇU NO MARANHÃO – 1ª PARTE



“ ... vivendo lá na Baixada, imersa nos palmeirais que ostentam sempre incessantes  tua riqueza em babaçuais...”

Segundo Câmara Cascudo (1954), o capuchinho Claude d´Abeville, quando veio ao Maranhão com os invasores franceses, em 1612, encantou-se com a beleza e diversidade da nossa flora, comparando os babaçuais ao próprio paraíso terrestre, ressaltando a importância do coco na alimentação dos nativos.
            Oficialmente as primeiras referências sobre a palmeira babaçu datam de 1820, porém pouco se  sabia  sobre a utilidade de suas amêndoas.
Até 1908, os relatórios sobre o Brasil, suas riquezas naturais e atividades industriais,  das séries Estatísticas Retrospectivas. Tomo I – Indústria Extrativa, da Confederação Nacional das Indústrias  e relançados pelo IBGE em 1986, não faziam referência ao babaçu.
Apesar de conhecida desde os primórdios pelos índios, seus descendentes e populações interioranas,  para extração rudimentar do leite, palmito e do óleo para atender a várias finalidades, somente no início do século XX  começou a ter importância, sob  o ponto de vista econômico,  quando foram feitas as primeiras exportações para a Alemanha.
Antes da I Guerra Mundial, o babaçu era apenas uma das altas e belas palmeiras do nosso estado que realizava, como a carnaúba o faz no Nordeste, uma função providencial. Das palmas da pindoba ou palmeira nova, o nosso caboclo faz ainda nos dias atuais a cobertura de suas choupanas, seus  cofos, cestas, peneiras, urupemas, abanos, gaiolas, armadilhas, esteiras e as  meansabas para cerrar portas e  janelas. Também cercas e abrigos para animais domésticos.  O palmito, nessa época liberado, era usado como ração de animais, enquanto as amêndoas eram aproveitadas na alimentação humana. Na Amazônia era usado para defumar a borracha.
Mas a guerra europeia com as suas prementes necessidades de matérias-primas determinou o advento industrial de muitos produtos novos e, entre eles, o óleo de babaçu. Antes, anônimo e ignorado, esse fruto tornou-se imprescindível adventício no meio econômico. Só a partir da I Guerra Mundial, com a acentuada escassez  de óleos vegetais nos mercados europeus e norte-americanos, o babaçu firmou-se como opção para substituir os óleos até então utilizados. Já iniciadas com a Alemanha, as exportações ampliaram-se para a Holanda, Portugal e mais tarde para a Dinamarca. Isso acarretou uma subida de preço das amêndoas, com expansão das áreas de extração e uma procura mais urgente de regiões com maior potencial produtivo.
O Maranhão cognominou-o de “ouro marrom” e como seu principal produto de extração, foi um dos estados mais beneficiados com essas demanda resultante do conflito europeu, pelas vastas áreas de babaçuais ainda não devastadas. Fundamental para mudança do eixo econômico do Itapecuru para o Mearim e Pindaré que possibilitou a criação de vários municípios como Bacabal. Essa grande demanda foi recebida festivamente, como promessa de um novo reaquecimento econômico, pois à essa época, as terras já haviam se tornado improdutivas, exauridas pelo cultivo do algodão, arroz e cana-de-açúcar.
Entretanto, com a subida dos preços e ofertas, a produção começou a enfrentar sérios entraves, tais como dificuldade para obtenção das amêndoas ainda feita de modo primitivo, carência de vias de escoamento sem estradas e com a precária situação da navegabilidade dos nossos rios. Proporcionou alguns anos de prosperidade, enriquecendo atravessadores e industriais, mas desviou o lavrador de suas culturas tradicionais, principalmente do algodão, cujo trabalho é mais extenuante e intermitente. Sofreu, também, a concorrência, por seu preço elevado, em relação a outros óleos nacionais e estrangeiros. A falta de capitais empatados nas fábricas têxteis em processo de decadência, somada  à ausência de financiamento por parte da União, impediram a formação de um complexo industrial de óleos. Mesmo no Sudeste as usinas especializadas não absorviam senão uma parte da produção dos nossos cocais, sempre na dependência das oscilações do mercado internacional.
O sonho de riqueza para o Maranhão novamente não foi concretizado com o extrativismo de forma intensa, embora a amêndoa continue a ser até os dias presentes,  requisitada pela indústria oleaginosa.
O caso do babaçu foi igual ao da borracha na Amazônia, que apesar de grandes rendimentos auferidos, não conseguiu deslanchar, pela desorganização econômica, gerando grandes decepções. Outras atividades, como a monocultura passavam também, por crises, mas pelos hábitos e métodos de trabalho que estimulavam, davam às populações certa segurança e a possibilidade de sobreviver em circunstâncias desfavoráveis. Quando se  compara a atividade extrativista com a rural, constata-se que esta é  menosprezada em detrimento da obtenção de riqueza mais fácil obtida das matas. No entanto, é sempre a lavoura que vem restaurar o organismo social combalido. Segundo Rego (2006), “as práticas extrativistas e ecologicamente sustentáveis usadas para explorar os recursos naturais dependem do nível tecnológico, das formas de organização social,  assim como as determinadas pelos elementos sociais. A cultura das populações ou comunidades é o cimento que dá unidade ao ambiente social extrativista.”
            
CONCEITUAÇÃO E CARACTERÍSTICAS BOTÂNICAS

O termo babaçu designa tanto a palmeira como a amêndoa retirada de várias palmáceas dos gêneros Orbignya, Attalea, Maximiliana e Scheelea, de valor comercial e industrial.
Babaçu é  a denominação  comum a várias espécies de palmeiras autóctones  do Brasil, também conhecidas por aguaçu, coco-de-macaco, coco de palmeira, coco-naiá, coco-pindoba, coco-de-rosário. A sua importância decorre  das suas amêndoas oleaginosas, sendo as palmáceas mais conhecidas, a Orbignya speciosa ou O. martiana, O. olífera e O.phalerata.
Em 1850, Martius classificou-a como Attalea speciosa; posteriormente Barbosa Rodrigues, em 1898, verificou que o babaçu pertence realmente ao gênero Orbignya. Apesar de serem conhecidas várias espécies a O. speciosa que tem frutos menores é a mais explorada no norte do Brasil, enquanto O. olifera, de frutos maiores, ocorre nos estados do  Tocantins, Goiás e Bahia.
A espécie O.speciosa é mais comum nos estados do Amazonas, Pará, Ceará, Maranhão e Piauí, sendo estes dois últimos os maiores produtores. Nestes, os babaçuais se apresentam em extensas formações naturais, cuja exploração constitui importante indústria extrativista, sendo responsáveis por 96% da produção brasileira, enquanto a produção maranhense gira em torno de 83% da produção nacional.
Pertencente à família das Arecáceas ou Palmáceas, é uma palmeira robusta, de estipe reto, aspecto colunar elegante. Nos espécimes seculares chega a medir 20m de altura, por 45 cm de diâmetro, coroado por um conjunto de folhas ou palmas  planas, penipartidas ou pinadas, eretas, divergentes, alternadas, invaginantes, longas com mais de 6m de comprimento com pinas distribuídas em toda a extensão do raque; tem pecíolos persistentes e fibrosos São bem ramificados, pedúnculos longos com cerca de 1m. As flores são sésseis, providas de cálice com sépalas oblongas e corola com pétalas de bordas irregulares, estaminadas  creme-amareladas e aglomeradas em longos cachos que aparecem nas inflorescências femininas, entre os meses de julho e novembro. A frutificação se dá entre 7 e 8 anos e cada palmeira pode produzir, numa só safra, quatro a seis cachos, cerca de 2000 frutos. Os frutos, em cachos pendulares, são drupas oblongas, de cor ferrugínea, medindo 8 a 15cm por 5 a 7cm de diâmetro, contendo 4 a 6 sementes chamadas amêndoas, de cor sépia e internamente branco-amareladas, medindo 2,5 a 3 cm de comprimento por 1,0 a 1,5cm de largura. A vida produtiva das palmeiras é de aproximadamente 60 anos e a propagação e disseminação é feita através dos cocos que caem quando maduros e são transportados pelas enxurradas ou por animais, como os roedores e marsupiais.
O exocarpo do fruto é formado de fibras resistentes e corresponde a 15% do seu peso. O mesocarpo tem 3 a 6mm de espessura, é constituído de uma substância compacta, amarelada, rica em amido e tanino e corresponde a 20%. O endocarpo é muito rijo e de cor sépia de 3 a 7mm de espessura, corresponde a 59%.  Essa dureza dificulta a quebra do coco. As amêndoas constituem a parte de maior valor por encerrarem óleos, sais minerais, fibras, proteínas, carboidratos, ácidos graxos. O óleo é de cor branca levemente amarelada.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

Nativa no Brasil é encontrada também no Panamá, Guianas, Suriname e Bolívia. No Brasil ocorre da Amazônia a São Paulo, sendo encontrada em áreas isoladas do Ceará, Pernambuco e Alagoas.
No Maranhão e no Piauí ocorre espontaneamente, nas terras arenosas e baixas, nos vales dos rios Itapecuru, Pindaré, Grajaú, Mearim e Parnaíba. Em Minas Gerais ocorre ao longo dos rios São Francisco e seus afluentes e, ao norte, em direção ao Urucuri. Em Goiás, na região norte, em Tocantins e a oeste, na direção de Mato Grosso. Essa ocorrência depende da tolerância a climas com temperaturas elevadas e precipitação pluviométrica superior a 1.000mm anuais. Até a década de 1980, antes das grandes derrubadas para implantação de projetos agrícolas, como o cultivo da soja, expansão da pecuária e criação de novos núcleos populacionais, os babaçuais do Maranhão e do Piauí cobriam uma área de 100.000km², com cerca de um bilhão de palmeiras, concentrando-se, principalmente em Matões, Coelho Neto e Caxias.
Quando a mata é derrubada e queimada surgem incontáveis mudas de babaçu, provavelmente resultantes de sementes que se encontram disseminadas no solo. Geralmente a densidade das palmeiras é maior às margens dos rios navegáveis, como o Mearim (86.554km²), o Pindaré, o Itapecuru e o Parnaiba (3.000 km²), à beira dos lagos e campos. Em brejões chegam a ocorrer até 3.000 palmeiras/há. Além dessas áreas o babaçu é encontrado no golfão maranhense, nordeste do estado e vales altos, representados pelas partes superiores dos vales do Itapecuru, Mearim e Parnaiba. Muitas palmeiras são improdutivas, quando em grandes maciços, considerando-se adequada a concentração de 100 a 120/ha, eliminando-se as excedentes e mais velhas, para evitar o empobrecimento do solo em fósforo, potássio e outros minerais.

          UTILIZAÇÃO DO BABAÇU

As amêndoas constituem  6 a 8% do peso do fruto e representam a fonte de óleo; aproximadamente encerram 65 a 68% de óleos, usados na fabricação de sabões e detergentes e, após a refinação, para fins alimentícios e fabricação de margarina. O óleo, em suas propriedades é semelhante ao do coco da Bahia, da praia ou manso e ao óleo de dendê, com elevados teores de ácido láurico. Calcula-se que cada palmeira chega a produzir 3,5k de óleo, por ano.
Também usado na indústria de cosméticos para  fabricar sabonetes, cremes, xampus, hidratantes. O leite obtido é usado na preparação de vários pratos da nossa culinária cabocla.
A torta resultante da moagem das amêndoas é utilizada na alimentação de animais, principalmente de gado leiteiro e como fertilizante nitrogenado e fosfatado.
O broto fornece palmito de boa qualidade. Em determinada época foi baixada uma portaria para proteger os babaçuais, ameaçando com encarceramento quem derrubasse palmeiras novas para obtenção desse produto. O fruto, ainda verde é utilizado pelos seringueiros para defumação da borracha; ao amolecer servem como alimento. A população das regiões onde ocorre o babaçu usa o caule e as folhas para construção de suas casas rústicas, sendo o caule usado como esteio e as folhas como cobertura.  Também são aproveitadas para fazer tapumes, esteiras, cestos, cofos, abanos, tapetes e outros trançados e meançabas para protegerem portas e janelas. Do pedúnculo extrai-se um líquido que após fermentação transforma-se em bebida apreciada pelos índios. O coco polido é usado para fazer piões, brinquedo de crianças do interior.
Nas últimas décadas tem sido isolado do mesocarpo do babaçu um pó, usado na alimentação de crianças, gestantes e idosos. Também na preparação de bolos, tortas, vitaminas, sucos.
                    
 USOS EM MEDICINA POPULAR

Devido à grande quantidade de fibras, o pó do babaçu,  é indicado para debelar prisão-de-ventre. Utilizado como anti-inflamatório, cicatrizante de tumores, feridas crônicas, úlceras gástricas e duodenais, colite ulcerosa, anemia, varizes, obesidade, reumatismos inflamações do útero e ovários. O óleo é eficiente regenerador celular, com propriedades emolientes e hidratantes permitindo a permeabilidade da pele, contra celulite, alergias.
 O dr. José Benedito Câmara Ribeiro, economista pinheirense, radicado em Marabá, em instigantes estudos que vem suscitando polêmicas,  aplica conhecimentos  de Física Quântica, para explorar as potencialidade medicinais do mesocarpo do babacu, testando em várias doenças, inclusive em câncer, buscando dessa  forma, agregar valor ao produto, tão abundante em nosso estado.


  IMPORTÂNCIA ECONÔMICA

“Do babaçu tudo se aproveita” é voz corrente na região dos babaçuais, localizada na faixa de transição para a floresta amazônica, com uma área de 18,5 milhões de hectares, abrangendo os estados do Pará, Tocantins, Maranhão e Piauí.
O babaçu tem múltiplas e importantes aplicações econômicas, além das mencionadas no capítulo anterior, de utilização doméstica, como o azeite e o carvão. Dizem os caboclos dessas regiões que são 49 as utilidades da palmeira.
Do epicarpo retiram-se fibras para diversas aplicações. Do mesocarpo, representado pela fécula amarela, faz-se uma bebida semelhante ao chocolate e uma farinha medicinal  para alimentar convalescentes, idosos e crianças. O endocarpo, que representa 59% do coco, pode ser usado como substituto do marfim nas aplicações em que se usa o osso, como na fabricação de botões, escovas e capachos. Também usado pelos artesãos, para fabricar cinzeiros, porta-copos, cachimbos, prendedores de cabelos, alianças, pulseiras, porta-canetas. Na Casa do Artesão vi  há alguns anos, um faqueiro completo; também uma bandeja com xícaras de chá, café, bule, leiteira, manteigueira, açucareiro confeccionados com  babaçu. Das folhas são confeccionados chapéus, peneiras, urupemas, gaiolas, armadilhas, abanos, sandálias, bonés, embalagens.
A massa absorvente pode ser usada na composição de dinamites. Com o mesocarpo também se fabricam isolantes para fios elétricos. Da casca, extraem-se subprodutos, tais como: acetato de cal, álcool metílico, ácido acético, vinagre, derivados do ácido pirolenhoso, óleos lubrificantes leves e pesados; fenóis, ácido fênico, tintas para ferro, piche, breu, derivados de alcatrão. Um  kg de cascas fornece 30% de carvão, 60% de ácido acético, 1,5% de ácido metílico e 8% de alcatrão. O coquilho dá um coque excelente desprovido de enxofre. O carvão fornece 8.010 calorias e 72,2% de carbono fixo, sendo excelente substituto da hulha.
Na indústria de cosméticos é usado para fabricar sabonetes, xampus, cremes, hidratantes.
                      
       VALOR NUTRITIVO

O mesocarpo ou pó do babaçu, além de fibras, é rico em carboidratos, colina, enzimas e sais minerais, além de vitaminas, principalmente as vitaminas B¹ e B² e  E.
O  palmito é comestível e as amêndoas  que representam cerca de 9% do coquilho, são a grande riqueza do babaçu. Possuem, em média, 7,25% de albuminoides; 66,0% de gorduras; 18,0% de carboidratos favoráveis à digestibilidade, ácido láurico, capróico, caprílico, palmítico, esteárico, mirístico, oleico e linoleico. Também possuem 0,5% de ácido fosfórico; 7,8 de sais calcáreos e outros. O óleo é usado na culinária, gordura pastosa e margarina.

        UTILIZAÇÃO INDUSTRIAL

O mercado brasileiro formal estima que a produção brasileira é de 5,5milhões de toneladas/ano. Desse total 35 mil toneladas são destinadas à indústria de higiene, limpeza e cosméticos, absorvendo  85mil toneladas na produção de óleos, ácidos e gorduras. As principais indústrias de cosméticos, higiene, limpeza e margarina estão no Sudeste. O excedente é exportado.
Das folhas fabrica-se papel e celulose.

PRINCIPAIS PRODUTOS E SUBPRODUTOS DO BABAÇU
                                            COCO
  
 1 – mesocarpo: amido e fibras que produzem etanol, fertilizantes e farelo.
  2 – epicarpo: fibras e combustível
  3 -  endocarpo: carvão >ativado, coque, gases combustíveis)
   - Gases combustíveis: acetatos >ácido acético e acetona e metanol
  - Gases condensáveis: acetato, metanol e alcatrão >piche, fenol, cresol e benzol.
  4 – amêndoa : torta >farelo.
                  Óleo bruto >óleo refinado>margarina, sabão, glicerina.
O principal subproduto é a farinha, rica em fibras de uso na indústria para alimentação de animais e como fertilizantes.
Pesquisas estão sendo desenvolvidas pelo Grupo de Combustível Alternativo (GCA), da UEMA para aproveitamento do babaçu como fonte alternativa energética.
O óleo bruto é extraído por prensagem e os subprodutos com o emprego de solventes.
                  
      OUTROS EMPREGOS

Além de ser usado em artesanato, o babaçu é palmeira de porte elegante e ornamental escolhida para paisagismo de praças, parques e jardins. Na nossa cidade há um ou mais espécimes na Praça João Lisboa, o coração pulsante de São Luis. Quando Burle Marx projetou o paisagismo do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, o parque foi dividido em vários jardins, cada um com árvores representativas dos estados brasileiros. No canteiro do Maranhão foram plantadas diversas mudas de babaçu.

   SITUAÇÃO ATUAL DO BABAÇU


Com a devastação de extensas áreas de cocais para a expansão da fronteira agrícola com o cultivo da soja, do avanço da pecuária  e outras atividades que necessitavam de braços fortes, como abertura de  novas estradas, o trabalho nos garimpos de Serra Pelada e extração de ferro e outros metais na Serra dos Carajás, a produção de amêndoas passou a ser feita em regime de economia doméstica. Surgiu uma nova categoria trabalhadora: as quebradeiras de coco – mulheres - que deram continuidade ao trabalho feito anteriormente por homens, inserindo-se na cultura maranhense. Momento histórico reconhecido até no exterior, pois as mulheres, calculadas em 300 mil, saíram do  acanhamento de suas casas e partiram para a labuta, como meio de contribuir com o orçamento doméstico e, quando mães solteiras ou viúvas, como únicas  provedoras da família. Antes de 1960 não encontravam nenhum empecilho para a coleta dos cocos, mas desde a década de 1980, essa região começou a ser assediada para a implantação de diversos projetos industriais, de mineração e agronegócios, deixando essa atividade marginalizada e até mesmo considerada atrasada e subdesenvolvida, embora  não se desconheça que é sinônimo de sobrevivência para milhares de pessoas. Os conflitos decorrentes da extração do babaçu, levaram as quebradeiras de coco a criar as MIQCD (Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco), cooperativas de organizações lideradas por trabalhadoras rurais extrativistas do babaçu, no Maranhão, Piaui, Pará e Tocantins. O movimento denominado Babaçu Livre,  foi um processo de lutas contra os pecuaristas que cercavam os babaçuais, impedindo a coleta dos cocos transformando em áreas de pastos, numa atitude criminosa contra o meio ambiente e a cultura das populações tradicionais. Em 1997, em Lago do Junco foi criada a Lei do Babaçu Livre, estratégia para regulamentação e proteção das quebradeiras de coco do Maranhão. Também ficou acertada a proibição  da derrubada de babaçuais em seis estados. As articulações foram iniciadas nas regiões do médio Mearim, povoado anteriormente ocupado por posseiros, descendentes de escravos e índios. Atualmente se juntaram às coletoras de castanhas-do-pará do Peru e Bolívia, tornando conhecida a sua luta e reivindicando melhorias das condições de trabalho, reconhecimento da categoria, além do direito ao acesso em babaçuais. Houve apoio e valorização do trabalho feminino, dando continuidade à extração das amêndoas pelo processo primitivo, uma vez que as várias máquinas inventadas não deram resultados satisfatórios. Para obtenção dessas conquistas contaram com a ajuda da Igreja Católica, através das Pastorais da Terra, Ministério do Desenvolvimento Agrário, do MST, do SEBRAE, com apoio financeiro da Fundação Ford do Brasil e da Fundação Banco do Brasil. No Maranhão, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Naturais (CEMA) baixou, em 2012 uma portaria (nº 16 de 03/02) que dispõe sobre o Licenciamento Ambiental Simplificado para o extrativismo, assegurando o desenvolvimento sustentável com melhoria da qualidade de vida dos povos e comunidades tradicionais, regulamentada em 09/12/2012.

Um comentário:

  1. Muito boa essa primeira parte. O uso em medicina popular é bem interessante. Daí dizer-se que dessa palmeira tudo é aproveitado.

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