MOEMA

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PAPIRUS DO EGITO

domingo, 17 de agosto de 2014

II PARTE: O ALGODÃO NO MARANHÃO



As primeiras referências sobre o algodão no Maranhão remontam ao Período Colonial, tendo sido feitas na época em que os franceses invadiram e se apossaram da ilha de Upaon-Açu, atualmente Ilha de São Luis, e plantavam a malvácea, segundo Diogo de Campos Moreno.
Além de cultivarem, faziam escambo com os chefes das várias aldeias da tribo Tupinambá, espalhadas pela ilha. Alguns historiadores dizem que esse número se aproximava de trinta. Além de usarem o algodão, enviavam para a França. Provavelmente era o algodão amarelo. Também Simão Estácio de Sá se refere a essa cultura em seu livro: Relação Sumária das Cousas do Maranhão, considerado o primeiro marqueteiro das nossas riquezas naturais, como forma de atrair seus patrícios para a América Portuguesa.
Também Francisco Dias Deiró, cúmplice de Bequimão na malograda Revolta, sugeriu à Câmara que não permitisse as exportações desse produto. Nessa época com 150 a 400 varas de algodão, comprava-se um escravo para a lavoura, multiplicando as colheitas e levando a Colônia a padecer com a falta do produto.
Em 1682 foi criada uma companhia de gestão privada, em substituição à Câmara Municipal, gerando conflitos de interesses, culminando com a Revolta de Beckman, e reprimida energicamente com  o enforcamento de Bequimão  e seu cúmplice. Somente em 1688, o governador Gomes de Freire de Andrade atribuiu um valor, em réis, ao novelo e vara do algodão, confirmado pelo rei.
Em 1693, Antônio Albuquerque de Carvalho taxou as exportações, impostos esses que destinados ao pagamento dos soldos dos soldados.
Em 1703, o Senado da Câmara  proibiu  a exportação em caroço e rama, deixando para consumo local. A primeira resolução, anulada em 1699 foi revogada, em 1757,  pelo gov. Gonçalo Pereira Lobato que proibiu sumariamente a exportação, atribuindo preços ao produto: o novelo passaria a valer entre 20 e 25 réis e um rolo por 10$000, usados como moeda-corrente. Permutava-se o nosso algodão por ouro em pó ou em barras com Goiás  e Minas Gerais. Em 1724 o algodão já era falsificado, isto é, os fardos continham além da pluma, pequenas pedras, folhas, pedaços de troncos e outras sujeiras, o que aumentava a pesagem, exigindo-se, a partir daí que os custos do  transporte fossem arcados pelo lavrador e a obrigatoriedade de uma marca por meio da qual se saberia a procedência de algodão e, consequentemente o nome do proprietário.
As primeiras áreas cultivadas ficavam no Itapecuru, Alto Mearim, Coroatá, Codó, Tutoia, Barreirinhas, Brejo e durante os primeiros anos do reinado de d. José, na região de Cumã, atual Regiões da Baixada e Litoral Norte, onde se situam Viana, Guimarães, Pinheiro, Cururupu, Alcântara.    As espécies mais cultivadas eram o “peruviano”  e outros, conhecidos por crioulo, governo e quebradinho. Só mais tarde foram introduzidas sementes de Sea-Island, Upland e outras dos Estados Unidos, empregando-se, ainda no plantio, o sistema rotineiro, sendo de preferência escolhidos os terrenos mais elevados, propícios às espécies arbóreas que duram oito anos ou mais e atingem entre 5 e 7 m de altura.
Inicialmente o algodão foi cultivado com o objetivo de suprir a necessidade de fabricar tecidos que pudessem ser utilizados para acondicionar produtos e usados como vestimenta dos escravos. Os integrantes da elite não utilizavam o produto da terra, preferindo importar os tecidos da Europa.
No contexto da economia colonial, o algodão surge como mais um produto agrícola que se estabeleceu na base do trabalho escravo, inicialmente usando a mão-de-obra indígena, substituída pelos negros trazidos da África, em grandes propriedades, caracterizadas pela monocultura voltada para o comércio exterior. 
Por essa época a moeda circulante era o algodão em novelos, fios e rolos de panos.
Em 1755, no reinado de D. José e por sugestão do seu primeiro-ministro, Sebastião de Carvalho, mais tarde Marquês de Pombal, foi criada a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, cuja produção foi incrementada através da disponibilidade de grandes recursos financeiros. Com a proibição da escravização dos silvícolas, houve necessidade de buscar braços mais vigorosos para aumentar a produção. Recorreu-se à mão-de-obra escrava, importando milhões de negros da África, auferindo grandes lucros para a Metrópole. Desse modo,  a região foi integrada ao grande sistema  comercial mantido por Portugal, mudando também, a fisionomia étnica da região. Cada negro colhia até duas arrobas diariamente. Os algodoais sofriam já as investidas do bicudo, também de aves, ratos, lagartos, percevejos ou pulgões e gafanhotos. A prensagem também era feita pelos escravos, comprimindo o algodão com os pés. Só mais tarde foram introduzidas as prensas de madeira ou bolandeiras puxadas por animais, substituídas pelas hidráulicas, melhorando a qualidade do produto. Até 1826 o descaroçamento era feito em maquinetas de madeira. Nesse ano  foi instalada a primeira grande descaroçadora,  na fazenda Barbados em Itapecuru, pelo proprietário o escocês Alfred Hall. Em 1831 já havia dezenas nas principais vilas da Província.
Em 1820 com a queda da cotação do algodão no mercado europeu, houve esperas e falências de muitos negociantes que se entregaram a luxos desmedidos, fazendo grandes compras à longo prazo. Também, nessa época foi criado o cargo de inspetor de algodão, visando a melhoria da qualidade do produto.
As exportações do algodão, em maior volume, tiveram relação direta com a crescente demanda industrial europeia. A primeira remessa deu-se em 1760, totalizando 651 arrobas  de plumas de algodão arbóreo, perene, de fibras mais longas. Em 1778, outras colônias como  Piauí e  Ceará, se tornaram importantes produtoras. Com a morte de d. José, o banimento da corte do Marquês de Pombal, d. Maria que substituiu o pai no trono lusitano, mandou publicar um alvará extinguindo todas as indústrias manufatureiras do Brasil que competiam, com  vantagem, com as de Portugal. Após a liberação o Maranhão voltou a ser um grande produtor-exportador, entre  1796 e 1806. Com a invasão francesa em território português, a arroba do algodão voltou a cair, subindo novamente em 1808 com a abertura dos portos brasileiros às nações estrangeiras.
O primeiro e mais importante mercado consumidor foi a Inglaterra, aumentando, consideravelmente, o comércio em decorrência da Guerra da Independência dos EUA, para atender a grande demanda consequente da Revolução Industrial Inglesa. Com isso o Maranhão teve o seu primeiro surto econômico, havendo necessidade de construir a Praça do Comércio na Praia Grande, centro de ebulição econômica e cultural de São Luis. Pelas casas comerciais exportavam-se os produtos maranhenses, principalmente o arroz e o algodão. Em contrapartida, entravam produtos europeus como tecidos, móveis, azeite português, cerveja da Inglaterra e outras novidades do Velho Continente. Esse fluxo comercial tornou São Luis a terceira cidade mais populosa do país, abaixo apenas do Rio de Janeiro e de Salvador.
O algodão maranhense cultivado no Vale do Itapecuru era considerado superior no mercado exportador, tendo sido classificado em 1° lugar na Exposição de 1867. Esse tipo de algodão  era mais alvo, mais resistente com fibras iguais, prestando muito bem para fabricar tecidos de meia durabilidade e finura média, quer para chitas.
Com uma área territorial de aproximadamente 333.000km², terras férteis, clima ideal  e condições favoráveis de escoamento, o Maranhão tornou-se, em pouco tempo,  um grande mercado exportador. As primeiras máquinas descaroçadoras eficientes, com  dois cilindros, só entraram no  fim do século XVIII.
Entretanto com a recuperação da produção norte-americana, a entrada no mercado de algodão mais barato do Egito e da Índia, aliadas à  abolição da escravidão, fizeram com que as nossas exportações despencassem  de 30% em 1825, para 2,3% em 1880. No fim do século XIX, esse setor começou a entrar em decadência. Com o preço reduzido, o algodão começou a apodrecer nas lavouras e abarrotar os galpões e depósitos, transformando antigos lavradores em industriais.  A produção agrícola foi aos poucos superada pela indústria têxtil que além de matéria-prima à mão, encontrou mercado consumidor, concorrendo para a expansão geográfica das cidades, pelo surgimento de novos bairros periféricos, geralmente ao redor das fábricas. Em 1880 estima-se que a exportação tenha sido de 2.630 toneladas, sendo cerca de 2.000t foram consumidas pelas fábricas de fiação e tecelagem.
A Balaiada, conflito que se espalhou entre caboclos e escravos foragidos das fazendas das regiões do Itapecuru e Mearim paralisou a produção, reduzindo- pela metade e causando grandes prejuízos não só aos lavradores como à economia da Província.
O estabelecimento de uma ativa indústria de tecidos de algodão, no fim do período monárquico e princípio do republicano,  com 10 fábricas de fiação  e tecidos de lã, e mais algumas, diversificando o nosso parque industrial  como as de produção de fósforo, sabão, de pilar arroz, chumbo, calçados, gerando a ilusão de uma nova e grande ascensão da lavoura . Em breve, no entanto, se dissiparam as esperanças. Os teares adquiridos por esses inexperientes industriais, não passavam de sucatas das fábricas têxteis inglesas. Convém registrar a falta de assistência técnica para orientar os plantadores que ainda o faziam de modo primitivo e rudimentar, a ausência de  infraestrutura para a construção das fábricas, carência de operários e técnicos especializados, ficando-se à mercê dos técnicos ingleses que permaneciam pouco tempo aqui, queixando-se do clima, da alimentação, da falta de diversões. Até a determinação do pH da água usada para lavagem do algodão, era feita na Inglaterra.
Com todos esses óbices, na virada do século, o número de fábricas instaladas subiu para dez, não só na capital, mas em municípios como Caxias e Codó. Na esteira desse processo houve necessidade de aumentar o número de equipamentos  descaroçadores, para separar as ramas ou plumas que eram enfardadas e remetidas para os mercados consumidores. Essa atividade era realizada em vilas e povoados, perto dos centros produtores, e não muito distante das fábricas, absorvendo grande contingente de mão-de-obra para esse mister.
Foram abertas  quatro fábricas de prensar os caroços de algodão, para extração do óleo e obtenção  da torta, para consumo de ruminantes. .         No primeiro quinquênio do século XX  as exportações atingiram  25 toneladas, decrescendo nos anos posteriores, em decorrência da dinâmica econômica mundial. Os principais fatores dessa falência começaram com a quebra da Bolsa de Nova York, elevação dos juros dos empréstimos, geralmente feito em libras esterlinas, a ausência de investimentos, o baixo  padrão de qualidade do algodão, ocorrendo a completa desativação na década de 1960.
                                                                                                                                                                                    
-     PRINCIPAIS FÁBRICAS TÊXTEIS INSTALADAS NO MARANHÃO
                            EM SÃO LUIS

O primeiro projeto para a criação de uma instituição onde se ensinasse as técnicas de cultivo, manejo, transporte e avaliação do produto, assim como seu uso na fabricação de tecidos e extração do óleo das sementes por máquinas movidas a vapor, data de 1873, com a fundação da Casa dos Educandos, por vários motivos,  não deslanchou.
1891 – Companhia de Fiação e Tecidos Cânhamo, com capital de 900 contos, operando 105 teares, com o objetivo de fabricar tecidos de juta, também chamado estopa ou aniagem, para ensacar  produtos.
1892 – Companhia Progresso do Maranhão, com 160 operários manipulando 150 teares, para produção  de panos de algodão.
- Companhia  Fabril Maranhense – Santa Isabel. Capital inicial 1.700 contos, 600 operários para trabalhar  em 450 teares, produzindo riscados e domésticos de algodão.
1893 - Companhia de Fiação e Tecidos Rio Anil. Capital inicial de 1.600 contos, 172 teares, 60 máquinas de fiação e 18 de branqueamento, produzindo morins e madapolões,  com 209 operários.
- 1893 – Fábrica de Tecidos de  Malhas Ewerton, com 30 operários produzindo meias e tecidos para camisas.
-1894 – Companhia  Industrial Maranhense, com capital inicial de 250 contos, com 50 operários. Destinada à manufatura de fio, punho de rede e rede de pesca.
- 1895 - Companhia de Lanifícios Maranhenses com capital de 600 contos, 22 teares e outros equipamentos com 50 operários para fazer todos os produtos de lã e seda. Fundada desde 1892, mas suas atividades só começaram três anos depois, produzindo riscados e brins.  Mais tarde foi arrematada pelo industrial maranhense Cândido Ribeiro  que nomeou a rua onde foi construída a fábrica.

                              EM CODÓ

1892 - Companhia Manufatureira e Agrícola de Codó. Capital de 1000 contos, fazendas, com 250 operários, produzindo fios, punhos e redes de pesca.
                                  
                       EM CAXIAS

1883 – Companhia Industrial Caxiense foi a 1ª a ser instalada no Maranhão. Era uma indústria de fiação e tecelagem.
1889 – União Caxiense.
 1891 – Fábrica Sanharó.
  1892 – Companhia Manufatora de Caxias.
  
 RESUMINDO: respaldada em dados de Fran Paxeco in Geografia do Maranhão, 1923 e repassados pela Prof. Lílian Leda:
 A primeira fábrica no Maranhão foi a Companhia de Fiação e Tecidos Maranhenses de João Antônio Coqueiro. Mais tarde, em 1883 foi criada a Indústria Caxiense. Em São Luis, organizou-se a Camboa (companhia de Fiação e Tecidos Maranhense). Em 1890 inaugurou-se a Fabril que reuniu as Fábricas de São Joaquim e Santa Isabel. Em 1891, foi instalada a Cânhamo  que trabalhava com a juta. Em 1893, a Companhia de Fiação  e Tecidos Rio Anil, que fabricava morins.
Nesse mesmo ano estabeleceram-se, em Caxias, a Sanharó e a Companhia Manufatureira Caxiense.
As Fábricas  São Luis de Fiação Santa Amélia que fabricavam brins e riscados, pertenceram a Cândido Ribeiro & Cia e iniciaram suas atividades entre 1894 e 1895.
            Em  Codó  foi instalada a Manufatureira Agrícola, completando o Parque Têxtil.
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Estas informações foram tiradas da Wikipedia sobre as nossas fábricas:
- Companhia de Tecidos Maranhenses – 1888-89, localizava-se na Camboa. Faliu em 1894.
- Companhia de Fiação e Tecidos de São Luis – 1894. Localizava-se na rua São Pantaleão, ao lado da Cânhamo.
- Companhia Lanifícios Maranhenses – Rua as Crioulas. Mais tarde passou a chamar-se Santa Amélia, integrando  o Grupo Cotonífico Cândido Ribeiro. Faliu em 1969.
- Companhia Progresso Maranhense – 1892. Localizava-se no prédio onde até bem pouco tempo funcionava o SIOGE. Teve vida efêmera,
- Companhia Manufatureira e Agrícola de Codó – 1893.
- Companhia Fabril Maranhense – 1893 – Rua Senador José Pedro, no local onde funciona um depósito da  Lusitana, perto do edifício do Ministério da Fazenda.
- Companhia de Fiação Rio Anil – 1893. Localizava-se no Anil onde atualmente funciona o CINTRA.  Faliu em 1969.
- Companhia de Fiação e Tecidos Cânhamo - 1891. Rua São Pantaleão atual CEPRAMA. Faliu em 1969.
- Companhia Industrial Caxiense – 1880.
- Companhia de Fiação e Tecidos – 1889. Era instalada à Avenida Pedro II.
- Companhia de Fiação  e Tecidos. 1889 – Caxias, Faliu em 1950.
- Sanharó – Trizidela, Caxias.
- Companhia industrial Maranhense – 1894. Rua dos Prazeres.
- Fábrica de Tecidos e Malhas Ewerton – 1892. Rua de Santana.
- Fábrica São Thiago. Antigo prédio da CINORTE.
 -  Cotonière Brasil Ltda. Década de 1930.


             Este tema terá continuidade, numa III Parte para abranger as atividades fabris do século XX.

AGRADECIMENTOS

À amiga Rosa Martins pelas fotos antológicas das fábricas.
Às amigas Malu Luz e Lílian Leda, pelas informações sobre as nossas fábricas.
                     

                     

                              

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