MOEMA

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PAPIRUS DO EGITO

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

VAI JUÇARA OU AÇAÍ?


Adoro juçara, embora até os dez anos de idade fôssemos proibidos  de tomá-la, em  nossa casa. Papai participou de duas expedições científicas na Amazônia, entre 1912-13 e concluiu que a prevalência da hanseníase era mais acentuada nas regiões onde o consumo da juçara era mais frequente.
Mamãe, atualmente centenária, toma juçara, diariamente, exceto aos sábados e domingos, quando almoça em casa dos filhos; mesmo assim vai contrariada porque gostaria de tomar a sua bebida predileta. Até os 100 anos, tomava um litro; depois dessa idade passamos a regrá-la e, nos dias atuais,  toma só a metade,  com açúcar, farinha dágua, acompanhada por camarão seco ou peixe  assado ou frito.  
Quando morei no Rio, uma colega de turma e de apartamento, certa vez recebeu um isopor com juçara congelada, enviada  de Belém, por seus pais. Fizemos a maior festa e, na hora de comer,  tremia  de tanta ansiedade. Mais tarde descobri que na Rua Domingos Ferreira, no bairro de Copacabana  onde morava, havia uma lanchonete que recebia juçara,  do Pará.  O preço era salgado, mas sempre que passava por perto, tomava a minha tigelinha com tapioca e camarão.
Em Belo Horizonte fiquei  no seco, mas em Brasília fui informada que um restaurante a recebia; fui lá poucas vezes pois  ficava muito distante e eu não tinha automóvel.
Finalmente voltei para São Luis onde se encontra a bebida o ano inteiro, proveniente da zona rural da Ilha e da Baixada. Na década de 1970, a dra. Rosa Mochel Martins e o seu esposos  dr. Ezealberto Martins, ambos agrônomos, organizavam em seu sítio, no Maracanã, no mês de Outubro, época da safra, a Festa da Juçara, ocasião em que faziam exposições de suas plantas. Atualmente, essa festa faz parte do calendário turístico de São Luís.
Tomava regularmente, mas nos últimos anos ando me precavendo. Há uma série de tabus e mitos envolvendo a juçara: não se pode misturar com leite, com bebida alcóolica e com certas frutas como manga. Ora, certa vez tomei em casa de uma colega do Departamento de Patologia, dra. Liana Fiquene Couto, licor de juçara e nada senti; pelo contrário gostei tanto que adquiri  uns litros com a sua fornecedora. A cor é belíssima e o  sabor requintado.
Fiando-me nessa experiência e em amigos paraenses, resolví , uma certa tarde, tomar juçara após comer umas mangas. Morávamos  em um sítio no Altos do Calhau com muitas fruteiras. Nessa época, antes da abertura da Av. Luiz Eduardo Magalhães era um bairro tranquilo, isolado, com características rurais, a 7 km do centro.  Tínhamos um jipe Niva, de fabricação russa para os deslocamentos em época de chuva, quando o Rio Pimenta transbordava, alagando a pista esburacada. Certa vez vimos um filhote de jacaré morto, na estrada, certamente atropelado.
Pois bem, a reação do meu organismo a essa mistura  começou com vômitos, a partir das 19:00h  com espasmos constantes e depois incontroláveis. Acabei o estoque de anti-espamódicos,  xantínon, engov, sal de frutas, extrato hepático e até chá de cascas de laranja e nada.  Mal-estar, tontura, vômitos e intensa sudorese apesar de estar com o aparelho de ar condicionado ligado. Meu marido preocupado queria levar-me para o Pronto Socorro, mas conseguí  impedi-lo, prometendo-lhe se até às 22:00h  os vômitos não parassem, que ele avisasse meu mano médico para ver para qual hospital eu iria. Sem nada no tubo digestivo já expelia um  muco espumoso; como último recurso  tomei um analgésico, à base de AAS e foi como os vômitos pararam e consegui dormir. Mito, tabu, ou apenas uma intoxicação alimentar provocada pela juçara de procedência duvidosa? Pelo sim, pelo não, nunca mais! Quem quiser pode misturá-los, mas eu realmente fiquei amedrontada!

         DIFERENÇA  ENTRE  JUÇARA  E  AÇAI?





Inexplicavelmente a juçara ou açaí não integra a obra  As frutas na Medicina Doméstica de A. Balbach. Também não fora mencionada pelo Frei Cristóvão de Lisboa, sendo, no entanto referida por Frei Francisco de N. Sra. dos Prazeres Maranhão em sua obra Poranduba Maranhense ou Relação Histórica da Província do Maranhão, escrita no início do Século XIX.
Há duas espécies que geram muita confusão: Euterpe edulis ou juçareira , palmeira típica da Floresta Atlântica, distribuindo-se da Bahia ao Rio Grande do Sul. Possui apenas um caule (unicaule)  com cachos de frutos sésseis, arredondados, de cor violeta.  Os frutos bacáceos, tem um só caroço e uma fina  camada de polpa, usada para preparação de um vinho semelhante  ao açaí. Até há algumas décadas dela se extraia apenas o palmito, correndo  risco de extinção.
Já o açaizeiro ou Euterpe oleracea  é nativo na região Norte  em terrenos de várzeas e igapós, podendo ser encontrado em terra firme da Região Amazônica, incluindo os estados do Maranhão, Pará e Amazonas. Também encontrado na Venezuela, Colômbia, Equador, Guianas, Brasil (Amazonas, Pará, Maranhão, Rondônia, Acre), assim como  em Trinidad e Tobago e nas bacias do Pacífico, na Colômbia e no Equador).
Produz vários perfilhos, formando touceiras. Esses caules, em número de 4 a 8 estipes, com 12m de altura e 14cm de diâmetro, são manejados para a exploração do palmito, ao longo da vida útil da palmeira. Entretanto, o contrabando do palmito em área de proteção ambiental  continua sem controle.
A palavra juçara denuncia  a origem tupinambá do tronco linguístico tupi, derivando  as palavras soshugara e  e soshyara ou jyssara (tronco de árvore).  Já o termo açaí entrou na língua geral amazônica da família linguística karib, da palavra iwasaí (fruto que chora) oyasai (árvore de águas), utilizada na Guiana Francesa.
As palmeiras podem atingir até 20m de altura, espécie monóica, isto é, com  flores masculinas e femininas no mesmo cacho, mas que se abrem em tempos diferentes. Daí a polinização cruzada ser mais frequente.
O tempo de germinação vai de 30 a 60 dias. Entre a floração e a frutificação há um intervalo de 5 a 6 meses. A produção por espécimes com idade entre 6 e 7 anos é de 15kg, que rendem 6 a 10 litros do vinho.
A juçareira é de extrema importância ecológica na cadeia alimentar do ecossistema da Mata Atlântica, responsável, outrossim, pelo desenvolvimento econômico sustentável.
O açaí da E.edulis apresenta perfil lipídico diferente em relação a E. oleracea, provavelmente por causa das baixas temperaturas da região, que influenciam no grau de maturação dos frutos.
Quanto à presença de açúcares o teor mais elevado é encontrado na juçara, sendo  mais doce que o açaí.

                            VALOR  ALIMENTÍCIO

O alto valor energético se dá, principalmente, pelo conteúdo total de lipídios que fornecem cerca de 70 a 90% das calorias dessa bebida. Considerada afrodisíaca, usada em caso de disfunção erétil e revitalizadora de energias. A partir dos últimos 20 anos caiu na preferência  das academias de ginástica, lanchonetes, restaurantes, em mistura com xarope de guaraná e outros sucos de frutas. Usada, também na preparação de sorvetes, iogurtes, cremes, geleias, pudins e até licor.
Bastante consumida pelas populações ribeirinhas do Amazonas, desde o período pre-colombiano. Também no Pará e no Maranhão.
No Pará a polpa é mais grossa e comida com tapioca. Aqui no Maranhão, o suco é mais ralo, tomado com  ou sem açúcar,  com farinha seca ou  dágua, acompanhada por camarão ou peixe seco.
Antes da fabricação das máquinas processadoras do açaí, inclusive da máquina  Expressa, a bebida  era obtida de maneira rudimentar, o que deve ser ainda usado nos povoados, Retirados dos cachos, após cuidadosa lavagem, são postos de molho em água quente, dentro de um alguidar de barro. Quando a polpa está mole e solta, amassa-se com as mãos ou com o auxílio de uma garrafa, depois então, é passada numa peneira para reter o bagaço.
Em Belém há algum tempo houve  um surto de doença de Chagas, na fase aguda, atingindo toda uma família, sendo atribuída à falta de higienização prévia dos frutos, contaminados com fezes de triatomíneos (barbeiros).
Nas duas espécies, tanto o palmito como os frutos  têm as propriedades organolépticas e nutritivas  semelhantes.
Até o ano de 2003 era utilizado apenas os frutos da Amazônia; a partir dessa época começaram a ser explorada a espécie da Mata Atlântica, principalmente em Santa Catarina. Na Bahia o cultivo começou a ser feito em função do generalizado uso da polpa.
As sementes liofilizadas e transformadas em pó são usadas em sucos e como suplementos alimentares.
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                     IMPORTÂNCIA EM MEDICINA

Pesquisadores do ITAL (Instituto de Tecnologia dos Alimentos) encontraram nos frutos da juçara/açaí  grande teor de antocianina, da família dos flavonoides fitoterápicos, com capacidade de combater os radicais livres, proteger a saúde cárdio-vascular, melhorando a circulação sanguínea do organismo contra o acúmulo de placas de gordura e diminui os efeitos das doenças  que atingem a memória e coordenação motora como o Mal de Alzheimer. A antocianina, poderoso anti-oxidante é responsável pela cor escura da casca dos frutos maduros e apresentam o teor mais elevado na juçara (1,347mg) do que no açaí (36mg).
Ajuda a emagrecer pela presença de tocoferol, gorduras ômegas 3 6 e 9, rico, também em gorduras monoinsaturadas e poli-insaturadas que previnem doenças cardíacas, perda da visão.  estimulando  o metabolismo do organismo  ajudando-o a queimar mais calorias. Previne a celulite  e protege a pele dos raios solares.
Ricos em sais minerais como fósforo, potássio, cálcio, sódio,  magnésio, manganês, zinco, cobre e principalmente ferro. Também, nitrogênio,  proteínas, açúcares, lipídios e fibras, além da vitamina A. Os níveis de lipídio, proteínas e cálcio são aproximados do leite bovino, mas a proteína deste é de melhor qualidade. O número de calorias é praticamente igual nas duas espécies.
Os teores de minerais são diferentes em relação às duas espécies, sendo que o ferro  se apresenta mais acentuado: no açaí é de 328,5 mg, enquanto na juçara é de 559,6mg. Em relação às proteínas, o açaí apresenta taxas mais elevadas.
O ferro é o elemento mais importante para formação da hemoglobina do sangue, possibilitando a respiração celular. Entretanto, o ferro contido no açaí, é inorgânico ou não hemínico, possui uma taxa reduzida de absorção, formando compostos que são insolúveis e indisponíveis para absorção. A vit. C que propicia essa absorção é encontrada em pequena quantidade.
Pesquisas realizadas na Universidade Estadual da Flórida atribuíram ao açaí   papel potencial para enfrentar as condições debilitantes das pessoa, sendo considerado de  inestimável valor no tratamento de vários cânceres, pela  destruição  das células malignas.

OUTROS USOS DO AÇAIZEIRO OU JUÇAREIRA

As folhas são usadas na confecção de chapéus, esteiras, cestos, vassouras, cobertura de casas. As sementes livres do material fibroso  que as envolve, são utilizadas, também, no artesanato. A madeira resistente às pragas é usada na construção civil.
Também usado na indústria de cosméticos como manteiga e polpa esfoliante para as pernas, sabonete cremoso e esfoliante, óleo trifásico e colônias.
                       
                                  LENDA DO AÇAÍ

No coração da floresta onde está situada atualmente a cidade de Belém, habitava uma tribo de índios que numa determinada época sofrera com uma grande escassez de alimentos, levando o cacique Itaki a promover um controle populacional para minorar a fome do seu povo.
Para tal determinou  que todas as crianças que nascessem a partir dessa data fossem sacrificadas e servissem para alimentação da tribo. Iaçá, a filha mais nova do cacique, deu à luz a um menino que teve o mesmo destino das outras crianças. Inconformada a mãe chorava todas as noites a perda do filho, quando em certa noite de luar, ouviu o choro da sua criança perto de uma bonita palmeira. Feliz, Iaçá abraçou seu filho até que misteriosamente ele sumiu, deixando-a desesperada por vários dias. Mais tarde foi encontrada por sua gente, morta, abraçada em uma palmeira e com os olhos pretos dirigidos para seus cachos. Era um açaizeiro. Comovido o pai mandou apanhar uns cachos com frutinhas escuras como os olhos da filha e amassá-las para extrair-lhes uma bebida que passou a ser a fonte de alimentação da sua tribo. O nome dado à fruta é o nome de Iaçá, ao contrário. Também explicado o significado de iwasai árvore de água e fruto que chora.

O AÇAI  NA MEMÓRIA DO AMAZONENSE E NA MPB

“Quem vai ao Pará, parou, bebeu açaí e ficou”- expressão conhecida há muito tempo. Quando se diz que uma pessoa é Açaí de 10, significa que é grossa e arrogante e tem tudo a ver com a espessura da polpa na época da safra.
Na MPB encontramos apenas duas composições, uma de Djavan – Açaí que faz referência à propriedade como guardiã da cultura amazonense e uma de um compositor regional, Nilson Chaves – Sabor Açaí.



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